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Presented to the

U^^LARYofthe

UNIVERSITY OF TORONTO

by

Professor

Ralph G. Stanton

BRANCO

|0 220 e 320

I Irmaiin. OH Felízeii. ftl. VII, O latbeina. nan. XI e J. C. Vieira

XIII. Di- > Candai. njr. XVII,

eXXI. lio- o. - XX III. osa.— XX%. à. IiruiLa de

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ADO

N.* 1- V— "'"" .-»v.^.«.«^ ...UBtre Tartarin)

1 vol. de 176 paginas.

N.» 2 D. Carlos, do Saint-Réal, 1 vol. de 144 paginas.

N.» 3 Madame Chrysanthème, de Pierre Loti, 1 vol.

N.» 4 Sapho, de A. Daudet, 1 vol. de 200 paginas.

N.« 5 Negro e côr de rosa, de Jorge Ohnet, 1 vol. de 160 pag.

N.» 6 -- O senador Ignacio, de Th. Cahu (Théo-Crit). 1 vol.

N.» 7 Jettatura, de Theophile Gauthier, 1 vol. de 170 paginas.

N.» 8 Casa com escriptos, de Carlos Dickens.

N.* 9 O canteiro de Saint Point, de Lamartine.

N.» 10 Rosa e Ninette, de A. Daudet.

N.» 11 Primeiro amor, de Ivan TourgueneflP, 1 vol. de 160 pag.

N.« 12 Peccadc mortal, de André Theuriet, 1 vol. de 170 pag.

N.' 13-0 Judeu, de Henry Murger, 1 vol. de 160 paginas.

N.» 14-0 tanoeiro Nuremberg, de Hoffmann, 1 vol, de 170 pag.

N.*' Dinheiro maldito (Polikouchka). costumes russos, pelo Conde Leon Tolstoi.

N.» 16 Vida phantastica, por Mèry, 1 volume de 170 pag.

N.* 17 0 padre Daniel, de André Theuriet, 1 vol. de 160 pag.

N.o 18 Um coração simples, de Gustave Plaubert.

N.* 19 Yan, de Jean Karneau, 1 volume de 170 paa.

N.« kO O tio Scipião, de André Theuriet, 1 vol. de 196 paf.

N.*" 21 Diário de uma mulher, de Octávio Feuillet.

N.« 22-0 crime do juiz, de Paulo Féval, 1 vol. de 170 pag.

N.« 23 A Inundação, de Emilio Zola, 1 vol. de 187 pag.

N.« 24 08 Rantzau, de Erckman Chatrian, 1 vol. do 200 pa^k

LISBOA

Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA

(livraria editora)

50t 52 Rua Augusta 52, 54

CoUecção ANTÓNIO MARIA PEREIRA

VULGARISAÇAO DOS MELHORES LIVROS

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N.» 9— A jóia do viee-rei, romance histórico, por Pinheiro Chagas, 1 vol.

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N.*« 18 e 19— Em segredo, romance, trad. de Margarida de Sequeira, 2 vol.

N.®* 20 e 21 Irmã da Caridade, por Bmilio Castellar, traducçâo de L. Q. Chaves 2 vol.

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N.° 26-0 mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e fiamalho Ortigão, 1 vol.

N.o 27—0 naufrágio de Vicente Sodri, rom. histórico de P. Chagas 1 vol.

N." 28 Vid'airada, por Alfredo Mesquita , 1 vol.

N.** 29 0 Bacharel Ramires ,yor Cândido Figueiredo, 1 vol.

IT.*" 30 e 31 -.amor à antiga romance de Caiei, 2 vol.

N."* 32 ^a Netas do Padre Eterno, por Alberto Pimentel.

N.« 33 Contos, de Pedro Ivo, 1 vol.

N." 84 O correio de Lyão, por Pierie Zaccone.

N.» 85— Fida de Lisboa, por Alberto Pimentel.

N.° 36 Historias de BVades, por Lino d'A88umpçâo.

N." 37 Obras primas, por Chateaubriand.

N.» 38—0 Exilado, romance histórico, por Mauricia C. de Figueiredo.

N." 39 Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.

N.° 40 e 41 —.4 Vida em Lisboa, por Júlio César Machado.

N.* 42 e 43 Espelho de Portuguezes, por Alberto Pimentel.

N.° 44 A Fada d'AuUuil, por Ponson du Terrail, traducçâo de Pi- nheiro Chagas.

N.o A Volta do Chiado, por Beldemonio (Eduardo de Barro* Lobo).

N* 46—Séea e Mica, por Lino d'A88umpçao.

N." 47 Ninho de guincho, por Alberto Pimentel.

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Requisições á Parceria António Maria Pereira

Biua AxÊguêta^ CO, B9 §4 -^LISBOA

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Volumes de tn-iB.". de 240 a 320

ROMANCES DOS MELHORES AUGTORES

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N.» 22 A alma de Pedro, de J. Ohnet. N.» 23 Camilla, de Guérin-Giniety. N.» 24 Trahida, de Maxime Paz.

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OBRAS

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

3CX1-V

OS BRILHAIITES 00 BimSILEIRO

VOLUMES PUBLICADOS

I Coisas espantosas.

II As três irmans.

III A engeitada.

rV Doze casamentos felizes.

V O esqueleto.

VI O bem e o mal.

VII O senhor do Paço de Ninães.

VIII Anathema.

IX A mulher fatal.

X Cavar em ruinas.

XI )

Correspondência epistolar.

XII

XIII Divindade de Jesus.

XIV A doida do Candal. XV Duas horas de leitura.

XVI Fanny.

xvn )

XVIII I Novellas do Minho.

XIX )

XX )

Horas de paz.

XXII Agulha em palheiro.

XXIII O olho de vidro.

XXIV Annos de prosa.

XXV Os brilhantes do brasileiro

CAMILLO CASTELLO BRANCO

§S illlffi DO MSIL

QUARTA EDIÇÃO

REVISTA E CORRECTA PELO AUCTOR

LISBOA

Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA

UVRARIA EDITORA

Rua Augusta, 5o, 5-2 e $4 1904

LISBOA OpnciNAS Typographica e de Encadernação

Movidas A vapor

Rua dos CorreeiroSf 70 e 72^ /••

1904

PKEpflCIO Dfl SEGUííM EDIÇÃO

Recebeu o publico urbanamente este livro posto que o livro não se apresentasse sempre de luva branca aos seus hospedeiros amigos. Algumas vezes, o auctor, descurando a pauta do moderno decoro com os leitores, abusou do tom de familiaridade, e nos quer parecer que despiu a casaca, e se ficou em mangas de camisa a contar as manhas das Ruivas e Ca- traias, dos Fialhos e Athanasios. Tem elle dito aos seus amigos que a velhice auctorisa cer- tas liberdades; e que, por mais agua de cal que se lance nos esgotos, os cheiros nauseati- vos vaporam sempre. Esta rasão da velhice e dos cheiros não é efficaz ; e, por tanto, é de es- perar que elle, na terceira edição do romance, introduza sifões mais perfeitos nas suas latri- nas sociaes, tornando inodoros os seus perso- nagens.

Afflícções sudoriferas

Em um frigidissimo dia de janeiro de 1847, por volta das nove horas da manha, o sr. Hermene- gildo Fialho Barrosas, brasileiro grado e dos mais gordos da cidade eterna, estava a suar, na rua das Flores, encostado ao balcão da ourivesaria dos srs. Mourões. As camarinhas aljofravam a brunida testa de Fialho Barrosas, como se a porosa cabeça d'este sujeito filtrasse hydraulicamente o estanque de soro recluso no bojo não vulgar do mesmo.

Era o suor respeitável da mortificação; o espon- jar das glândulas pela testa, quando as lagrimas golpham dos seus poços, e não bastam olhos a estancal-as. Era, em fim, a dor que flameja infer- nos em janeiro, e tira d'um homem adiposo e gla- cial lavaredas, como o ethna as repuxa por entre as neves do seu espinhaço.

Sondemos o que passa dentro d'aquelle corpo, e desinchemos as bochechas do estylo.

8 Os brilhantes do brasileiro

Hermenegildo Fialho tinha recebido, ás oito da manhã, no seu escriptorio de consignações e des- contos na rua das Gongostas, um bilhete da ouri- vesaria Mourão, convidando-o a entrar n'aquelle es- tabelecimento, quando podesse, para negocio ur- gente.

O substantivo anegocio» abalou-o. O adjectivo «urgente» sacudiu -o.

Poz o chapéo, revestiu de borracha os pés im- permiaveis, affligindo-os ; enroscou a cara no cache- nez, sobraçou o guarda- chuva, e foi impando, costa acima, pelo largo de S. Domingos, resmuneando no intimo de si: «negocio urgente!... que diabo de urgente negocio será este com o ourives !?...»

Então que temos? perguntou o esbofado Barrosas, e sentou-se na gemente cadeira.

E os srs. Mourões disseram pouco mais ou me- nos o seguinte: Que, seis annos antes, elle brasi- leiro lhes havia comprado um adereço de brilhan- tes, composto de gargantilha, brincos, broche e bra- celete por 6:5oo.'ZC500o réis, com o fim de presentear sua noiva, segundo elle comprador o declarara. Que, passados sete mezes, pouco mais ou menos, uma mulher desconhecida entrara na loja, e lhes vendera um brilhante desengastado por 2boití)ooo réis. Seis mezes depois haviam comprado á mesma mulher outro de igual quilate e valor. Corrido o mesmo praso, outro lhes fora offerecido e vendido. Que, no fim d'um anno, um ourives visinho lhes tinha negociado um brilhante de cem libras, o qual lhes despertara reminiscência de ter sido vendido em sua casa'; mas, por mais que avivaram lembranças-,

Os brilhantes do brasileiro (j

não recordaram a quem. E, volvido pouco mais d'um anno, diverso ourives lhes vendera outro bri- lhante do mesmo preço, dizendo que o comprara a um joalheiro hespanhol. Não obstante, insistiam em affirmar que as duas ultimas pedras tinham sido d'elles; sem todavia desconfiarem de roubo. Acon- tecendo, porém, que oito dias antes, uma mulher com geito de criada, a mesma que primeiro ti- nha ido, lhes levasse uma pulseira para se engas- tarem pedras falsas no encaixe de outras desen- cravadas, a desconfiança inclinou-se logo para rou- bo. Ficou a pulseira, e depressa reconheceram que era de sua casa, e d'ahi a suspeita de que os bri- lhantes comprados lhe houvessem pertencido. Os dois maiores ainda existiam soltos. Ajustaram^os nos engastes: frizavam perfeitamente. Recordaram com mais seguras probabilidades, e convieram na presumpção que a pulseira era parte das jóias do noivado compradas pelo sr. Barrosas, seis annos antes. E, na incerteza, deliberaram prudentemente reter a mulher, quando ella viesse buscar o brace- lete, certos de que, a ser a jóia do sr. Fialho, por força se praticara roubo, sendo improvável que um sujeito notoriamente rico mandassse vender bri- lhantes e repor minas novas na pulseira de sua esposa. . .

Deixe-m'a ver! atalhou o brasileiro Mostre-me isso ?

Mostraram-lh'a.

Era a pulseira de Angela.

Aqui principiou a borbulhar um sumo gomoso e crasso da testa do homem.

jo Os brilhantes do brasileiro

É de minha mulher, acho eu ! tartamudou ainda indeciso o sr. Fialho Que é da criada?

Está na policia porque tentou fugir. Se vossa senhoria quer, vae um cabo buscal-a.

Bom será, que eu não posso mecher-me. . . Parece que me arde o interior ! Dão-me os senho- res um copo d'agua, se fazem favor?... Isto no inferno I proseguiu o sr. Barrosas^ batendo na testa com os pulsos - Minha mulher não vendia os brilhantes ! É impossível ! Vendêl-os p'ra quê ? P'ra quê, não me dirão os senhores ?

Pôde ser que estejamos enganados observou um dos honrados ourives ; mas o esclarecerm^o- nos é tão necessário para vossa senhoria como para nós. Se nos illudimos, ficamos contentíssimos e so- cegados. As nossas suspeitas não offendem ninguém, senão a criada. Em fim, cumprimos um dever.

Fazem muito bem obtemperou o brasileiro ; mas minha esposa não vendia os brilhantes... Roubar-lh'os a criada? isso pôde ser; mas... Que figura tem ella ?

Baixa, gorda, mais de meia edade, vestida lim- pamente.

Os signaes são d'ella. . . Tem uma verruga no nariz, assim do feitio de ervilha ?

Não reparei.. .

E um dos olhos assim a modo de vesgo ?

Parece que sim... Ella não pôde tardar.

E então os senhores volveu o brasileiro com outro gesto de cara e tom de voz mais afinado se os brilhantes forem meus, como hade isto ser ?

Como hade ser ?!.. .

Os brilhantes do brasileiro Ji

Perdi-os, eim?

Isso é outra questão.

Que questão ? Eu acho que não ha questão ne- nhuma... Se os senhores compraram uma coisa roubada...

Provado o roubo, iremos haver a importância dos dois brilhantes uhimamente comprados ao ou- rives que nol-os vendeu; quanto aos que comprá- mos a pessoa desconhecida, posto que não este- jam em nossa casa, restituiremos o seu valor, se vossa senhoria quizer; mas seria justo e honroso que o sr. Fialho não sacrificasse quem o acautellou, para evitar que lhe roubem as outras jóias. Do con- trario, teríamos de nos arrepender d'um zelo que nos vem prejudicar. . .

N*este comenos, chegou a criada com um muni- cipal e cabo de policia.

E' ella mesma! está a ladra! bradou o brasileiro Com que então roubaste a pulseira de tua ama ? ! . . . Diz ! Não respondes ?

A creada abaixou a cabeça, e fechou hermetica- mente os beiços, como se receasse que alguma pa- lavra lhe fugisse.

Que dizes tu, Victorina ? bradou o amo Onde tens tu o dinheiro dos meus brilhantes ? Diz onde está o dinheiro que eu não te metto na cadeia... Declaras ou não ? Olhem a ladra que não tuge nem muge l viram ? Olha que te rebento, mulher ? Falias ? Roubaste os brilhantes ?. . . E esta ! nem pa- lavra ! Justiça com ella ! Enxovia, até declarar onde está o meu dinheiro!. . .

Os circumstantes^, espantados do silencio da cria-

12 Os brilhatites do brasileiro

da, e talvez suspeitosos d'algum mysterio talvez jus- tificativo da inculpabilidade d'ella, instavam-na a responder.

Perderia a falia com o susto aventou o cabo, e sacudiu-a pelos hombros paralhe desemperrar a lingua Você não pôde fallar, creatura ? Que fez você ao dinheiro dos brilhantes ?

Gastei o. . . respondeu ella soluçando.

Ah ! confessou ? interveio Hermenegildo cadeia com ella, que eu vou a casa ver se me falta mais alguma coisa. Hade ir degredada !

II

l:650tfl00 réis

Estava Angela na janella de sua casa na «rua do Bispo», quando o marido surdiu da esquina da «Pra- ça nova». Reconheceu-o logo pela corpulência re- donda. Retrahiu-se da janella, e disse comsigo as- sustada :

Ha novidade ! O coração bem m'o dizia. . . Meu marido nunca vem a casa a esta hora ! E Vi- ctorina sem chegar ! . . . Que seria ! , . .

O resfolgar de Fialho, escada acima, cobria o estrondo dos pés nos degráos que rangiam.

Angela ! Angela ! clamava elle.

Que é ?

Dou-te parte que estás roubada ! bradou o espheroide.

Roubada ! gaguejou a esposa.

Sim ! roubada, tu 1 Aqui tens o teu bracelete sem os brilhantes. Gonhecel-o ? que ladra sahiu a tua criada favorita ! Um conto, seiscentos e

14 Os brilhantes do brasileiro

cincoenta mil réis de pedras... foi -se ! E tu sem dares tino d'isto, mulher ! Viste ?

A pulseira tremia nas mãos convulsivas d'Angela.

E o marido proseguia :

Aqui tens 1 tirou-lhe as pedras boas, e tinha a pulseira nos Mourões para lh'as incravarem falsas. está na administração a ladra, e de vae pr'á cadeia, onde hade morrer ; mas o meu conto, seis- centos e cincoenta mil réis, esse é que não torna...

Angela chorava soluçante.

Não chores, menina ! accudiu o sr. Barrosas olha que isto não abala a nossa fortuna. . .

O' meu Deus! balbuciou a senhora com as mãos nas faces.

Não te afflijas que eu comprò-te outra pulseira, mulher, deixa-me por minha conta a criada ; que essa, ou eu não heide ser Hermenegildo, ou ella hade morrer na enxovia.

Que infortúnio, Jesus, que infortúnio ! bra- dou ella desafogando-se a custo dos soluços.

E ella a dar-lhe ! Tem animo, Angela í te disse que te dou outra pulseira. Sou muito rico, graças a Deus ! Da ladra da moça eu te vingarei !

Angela cobrou alento^ ergueu a face, enxugou as lagrimas, e disse serenamente :

Não prendas a criada que ella estáinnocente.

O quê ? 1

Victorina não roubou os brilhantes.

Então quem diabo os roubou ?

Mandei-os eu vender.

Tu ? 1 pr'a que ? o dinheiro d'elles que lhe fi- zeste ? exclamou o marido, fazendo ambos os pés

Os brilhantes do brasileiro i5

atraz^ e tressuando novos repuxos de afflicto suor Tu mentes, Angela 1 Dizes isso para livrar a cria- da, não é verdade ?

A verdade é que Victorina está innocente. Cas- tigame a mim, se queres, que os brilhantes foram vendidos por minha ordem tornou ella com admi- rável serenidade.

Que fizestes ao dinheiro, 4u ? ululou Fialho, sopesando com as mãos o arquejar do abdómen.

Gastei-o.

Em quê? Não tinhas o que te era necessá- rio ? !

Tinha ; mas. . . gastei o dinheiro. . .

Com quem ? com quem ? torno a perguntar com dez milhões de diabos, com quem gastaste um conto e seiscentos e. . .

Não foi em coisas que me deshonrassem, nem a ti.. .

Então diz em que foi ?

Não posso.

Não podes ? Raios ! . . . pois não podes ? então quem é que pôde ?

Não posso.

Arrebento ! Tu não me cegues, mulher ! Olha que eu te não vejo nem enxergo ! Com quem gas- taste um conto e seiscentos e . . .

Mata-me que te perdoo a morte ! volveu ella tranquillamente Morrerei sem remorsos nem ver- gonha. As jóias de minha mãe valem quatro a cinco contos de réis. Faz de conta que estás pago do roubo que te fiz : as tens.

A historia não é essa, não é o dinheiro. . .

i6 Os brilhantes do brasileiro

replicou briosamente o marido O que se quer sa- ber é a quem deste o capital ?

A quem o precisava para não ser infeliz.

Essa é boa ! Então deste um conto e seiscen- tos e cincoenta mil réis de esmola ?

Dei.

Mas a quem? a quem? com dez milhões de...

Não te posso diíer mais nada, Hermenegildo. . . .A criada está innocente. Não a prendas.

Hade ir presa até dizer a quem deste o di- nheiro.

Ella morrerá, sem o dizer.

Pois hade morrer. . . vociferou Barrosas sal- tando e batendo com os dois pés em cheio no soa- lho— E tu... não sei o que será de ti...

Mata-me que eu não tenho pena de deixar o mundo. . . murmurou socegadamente, mas debu- lhada em lagrimas, a pallida senhora.

Hermenegildo rolou a sua pessoa fumegante esca- das a baixo. Entrou no escriptorio do administra- dor, chamou de parte a authoridade, e contou-lhe o occorrido com a mulher^ insinuando o magistrado a sacar da criada o segredo.

O meu dever é aceitar as declarações voluntá- rias da criada, disse o administrador Não posso incutir-lhe terrores, nem devassar os segredos da vida domestica de vossa senhoria. Se sua senhora diz que a criada está innocente, a confissão da não basta a destruir o depoimento da ama, sendo de mais a mais muito natural que os brilhantes se hajam vendido por consentimento de sua esposa ; aliás desde muito que ella teria dado pela falta. Em-

05 brilhantes do brasileiro 17

fim, sou obrigado a interrogar a ama e a criada, uma na presença da outra.

Essa vergonha é que eu não quero ! obstou desabridamente o brasileiro.

O interrogatório hade ser secreto : não ha tes- temunhas que divulguem este acto impreterível de justiça, contraveio a authoridade. Se sua senho- ra disser de modo convincente: «a criada cumpriu as minhas ordens» é certo que a moça não pôde ser pronunciada, visto que obedeceu a sua ama ; e os desvios dos bens communs feito pela esposa não é roubo, nem a cumplicidade da criada é punível. Se sua esposa foi burlada por algum industrioso, e qui- zer declarar-se, o meu dever é seguir o fio do en- redo ; mas o que eu não posso é interrogal-a sobre segredos da sua vida intima. Isso pertence a vossa senhoria mediante processo d'outra naturesa. . .

Então... afinal diz-me vossa senhoria que... interrompeu o brasileiro zangado.

Que vou mandar chamar sua senhora. . .

Pois chame ! bradou elle Este negocio hade aclarar-se . . . Não se me importa a vergonha nem o diabo ! Eu sou um homem de bem, sr. ad- ministrador !

Quem o duvida ?

Ninhos atraz das orelhas não m'os fazem 1

Com rasão. . .

O meu dinheiro quero saber que fim levou.. .

Essas averiguações é que são delicadas, sr. Fialho, aconselhou a authoridade E parecia-me rasoavel e prudente que vossa senhoria as guardasse para o secreto da sua casa.

2

i8 Os brilhantes do brasileiro

Mas ella não o diz!

Se o não diz a vossa senhoria, menos o dirá a mim ou ao juiz. . .

Diz que deu um conto e seiscentos e cincoenta mil réis de esmolas ! O senhor acredita isto ?

Acredito;. .. porque não ? Se ella repartisse por todos os infelizes do Porto essa grande quantia, es- tou em que não chegaria um pinto a cada pobre.

Mas então a criada que diga a quem levava as esmolas. Dá-me vossa senhoria licença que eu- per- gunte ?

Sim, senhor respondeu o administrador, e, tangendo uma campainha, disse ao official de dili- gencias :

Essa mulher que entre aqui sósinha. Entrou Victorina.

Responda alli a seu amo disse a authoridade á presa.

Hermenegildo assoou-se, fez duas upas na cadei- ra, rossou no pavimento as espaciosas plantas, e rompeu n^este interrogatório:

Quem roubou os brilhantes?

Fui eu, senhor.

Mentes! Os brilhantes foi tua ama que t'os mandou vender!

Victorina estremeceu, fitou o administrador, e ga- guejou palavras imperceptíveis.

Foi sua ama que mandou vender os brilhan- tes?— interveio a authoridade.

Não, senhor. . . Fui eu que os, . . furtei.

E as lagrimas derivavam-lhe pelas faces copiosa- mente.

Os brilhantes do brasileiro ig

«Esta mulher está innocente!» disse entre si o interrogador.

Mentes, desavergonhada! trovejou o sr. Fia- lho, jogando com as catapultas dos braços á cara da criada.

Levemos isto mais moderadamente, sr. Barro- sas,— admoestou o administrador Ora diga-me, mulher, foi vocemecê mesma que vendeu os bri- lhantes ?

Demorou-se Victorina em responder:

Fui, sim, meu senhor.

A quem?

Repetiu-se a mesma tardança na resposta.

A quem os vendeu? aos ourives Mourões? repetiu o funccionario.

Sim, senhor.

Todos ?

Sim, senhor.

Está vocemecê mentindo. Os Mourões compra- ram três pedras a uma mulher, que provavelmente era vocemecê, e duas a um visinho. Como explica vocemecê esta verdade com a sua mentira?

A mulher abafava com soluços.

Seja verdadeira; vocemecê não roubou os bri- lhantes: vendeu-os por ordem de sua ama. . .

Não, senhor acudiu a criada com vehemencia.

Não me desminta, que logo vae ser sua ama interrogada na sua presença, e ella mesma disse ao sr. Fialho que vocemecê não furtou a pulseira.

O que eu quero— intermetteu-se o brasileiro é saber a quem a tua ama dava o dinheiro.

Isso é que eu não quero saber em quanto sua

20 Os brilhantes do brasileiro

senhora se não queixar de que foi lograda fraudu- lentamente— emendou o administrador do bairro disse a vossa senhoria que esta repartição judi- ciaria não é confessionário, nem entende com a mo- ralidade dos actos domésticos, entre casados, em quanto elles se não queixam competentemente. Da minha competência é saber como heide enviar esta mulher ao juizo criminal. EUa teima que roubou os brilhantes; a esposa de vossa senhoria declara que os mandou vender. O meu juizo está feito; mas. . .

Então qual é o juizo do sr. administrador? interrompeu o queixoso.

E' o )uizo do sr. Fialho.

O meu ? !

Sim : o senhor diz que foi sua esposa quem mandou esta ou outra mulher vender as pedras : eu digo o mesmo.

Mas quem me hade a mim dizer o caminho que levou o dinheiro? Um conto seiscentos e. . .

Sua senhora, se quizer.

Mas esta mulher sabe-o.

Vocemecê sabe-o, mulher? perguntou a au- thoridade sorrindo.

O quê, meu senhor?

Sabe o que aquelle senhor deseja saber?

Sabes a quem tua ama dava o dinheiro dos brilhantes ? perguntou o amo com estrondosos berros.

Que brilhantes?

Os brilhantes que ella te mandava vender.

Não me mandou vender nada.

Então roubastel-os tu?

Os brilhantes do brasileiro 21

Sim, senhor.

Hermenegildo sobre poz os braços um no outro, transversalmente apoiados no estômago, e começou a dar com elles de modo que tiravam um som de tympanites das cavernas subjacentes.

viram pouca vergonha d'este feitio? gri- tava elle Veja vossa senhoria se isto náo é para indoudecer um homem !

E, levantando- se com prodigiosa rapidez, excla- mou :

Vou consultar os meus amigos sobre o que devo fazer; vossa senhoria faça a sua obrigação. O negocio é muito serio. Heide sahir com honra d'esta tramóia. Sou um homem de bem. Quem quizer sa- ber quem é Hermenegildo Fialho Barrosas, pergun- te-o ahi na praça do commercio do Porto.

Sei que é um honrado capitalista, sr. Fialho ! Quem lhe nega as suas excellentes qualidades?

Vossa senhoria parece que está disposto a fa- vor dos criminosos ! retorquiu o ricasso, esbofe- teando uma mosca na testa.

Quem são aqui os criminosos?

Não sei ! não entendo esta balbúrdia !

Sua senhora diz que mandara vender os bri- lhantes. Quer que ella seja enviada ao juizo crimi- nal com o labeo de ladra? volveu o administrador agastado.

Não quero isso! quero saber quem recebeu o dinheiro.

Não posso esclarecei o.

O dinheiro gastei-o eu repetiu Victorina.

E' o que vamos ver.

22 Os brilhantes do brasileiro

Disse, e tangeu de novo a campainha o funccio- nario mandando o official que intimasse a sr.* D. An- gela a comparecer na administração.

Que vem ella fazer ? ! exclamou Victorina com afflicção Minha ama não tem que fazer n^esta casa!

se avenham! disse o brasileiro, e sahiu em cata dos seus amigos.

III

Retratos do nataral

Os amigos do sr. Fialho, áquella hora, estavam em grupo na calçada dos Clérigos á porta do im- maculado capitalista ***.

Hermenegildo chamou-os á sala do primeiro an- dar d'aquelle prestante amigo dos brasileiros, e fallou d'este theor:

Meus amigos velhos ! srs. Athanasio José da Silva, Pantaleão Mendes Guimarães e Joaquim An- tónio Bernardo ! . . .

Interrompa- se a apostrofe, e desenhemos as proe- minências moraes características d'estes sujeitos in- vocados a conferir e alvidrar n'um pleito de honra.

O sr. Athanasio tem quarenta e oito annos, é ca- pitalista, casado, sócio que foi de molhados com o sr. Fialho, bom visinho, cidadão pacifico, e aos cos- tumes disse nada. Porém, o povo reza que elle, apanhando em flagrante a esposa n'uma excursão

24 Os brilhantes do brasileiro

philarmonica ás espheras sonorosas com um cai- xeiro, tão duro e miúdo tocara o compasso no cai- xeiro com a batuta de uma tranca, que o rapaz ex- pulso a couces chegou á terra natal e expirou oito dias depois, contando o segredo a sua família.

A esposa de Athanasio, depois de encerrar-se quinze dias no seu quarto, viu abrir-se a porta á força, fez o acto de contricçao para morrer christã- mente, e ia expirar de pavor, quando o marido lhe abriu os braços e disse: «Estás perdoada; mas, se fazes outra, escavaco-te.» Desde então o porte d'esta senhora reduz as Fulvias e Marcellas a condições indignas dos gabos históricos. Peccadora que passe por ella é visão que a enjoa e adoenta. As filhas, quando a escutam discretar em virtudes, cuidam que sua mãe é uma mulher da Biblia.

Quanto a probidade mercantil, Athanasio José da Silva é contrabandista, e, algum tempo, ia men- salmente á estalagem da Ponta-da Pedra, em três carruagens de recreio, com sua familia e as famílias dos dois amigos presentes, receber cortes de seda, cambra'*as, rendas e pellames inglezes. Conforme á justiça e ás manhas do Porto, a firma de Athana- sio é das mais acreditadas na. praça, e as gazetas, quando escrevem Athanasio José da Silva, ante- pÕe-lhe ao nome os adjectivos honrado e probo; e, se acontece ir para Caldas ou praias com a mulher, vae sempre f o honrado capitalista com sua virtuosa esposa».

Pantaleão Mendes Guimarães, quarenta e cinco annos, capitalista, armador, antigo negreiro e ten- gajador» moderno. Ha doze annos que uma fres-

Os brilhantes do brasileiro 25

cassa loureira, chamada Francisca Ruiva, lhe coou filtros cupidineos atravez das enchundias do peito, e lhe atorresmou os toicinhos da alma. Pantaleao trasladou do bordel ás alcatifas de sua casa a Ruiva saudosa do lundum chorado, investiu a da gover- nança da dispensa, e mais tarde esposou-a, no in- tento de condecorar socialmente a lama que trou- xera do alcouce. E, de feito, D. Francisca Mendes, n'este anno de 1847, 1^ logrou a satisfação de se ver também calumniada de «esposa virtuosa» nas gazetas.

Joaquim António Bernardo, negociante por ata- cado de fazendas brancas, quarenta e um annos, estúpido perversissimo, antigo gandaieiro, que pas- sara uma doce mocidade, subtrahindo assucar mas- cavo das caixas expostas no Terreiro do Paço, e actual irmão da Misericórdia do Porto e fiscal da mesma. Casou com a mais desbragada pôlha que deu a Maya, e arreiou a de veludos e setins para a passear nas praças do Porto com o gáudio d'um cornaca vaidoso que expÓe o seu elefante ajaezado bisarramente. Esta Lais de trapeira, quando passa espeitorada, recende e trescala o fartum das excre- ções cutâneas.

Não obstante, a sua recamara não inveja á de Lésbia o sevo de delicias em que a maiata, Circe digna dos javardos que a esforçam, ganhou renome que bastaria a felicitar três coUarejas. Esta dama se viu, n'um periódico, em que se dava conta d'um seu baile, nomeada de «illustre e distincta.» Ambos os epithetos lhe quadravam, occultos os substantivos. Não a tratavam de virtuosa, porque

20 Os brilhantes do brasileiro

o localista receou que o termo, revendo ironia, lhe fechasse as portas do seguinte baile.

Eis aqui noiuito em escorço esboçados os traços dos três amigos de Hermenegildo Fialho Barrosas.

Deixal-o fallar agora.

IV

Tribunal de honra

Amigos e senhores proseguiu Fialho a ra- são doesta chamada vão vocês sabel-a !

Você parece que está afflicto, sr. Hermenegil- do ? ! accudiu magoadamente Pantaleão.

Se lhe parece !. . . E' um caso d'honra e que me ha de atirar á cova !

Ora deixe-se d'isso ! sobreveiu Joaquim Ber- nardo— Então os amigos p'ra que servem? Aqui estamos physica e moralmente para tudo que fôr preciso.

Meus amigos ! volveu o marido de Angela acontece em minha casa o mais extraordinário caso que vocês ouviram. . .

Como assim ? ! interrompeu o marido de Francisca Ruiva.

Negocio de mulheres!... Poucas vergonhas de mulheres!... Ainda ha quem se case!... esclare- ceu Fialho intercortando as palavras com uns sus-

2<y Os brilhantes do brasileiro

piros que lhe subiam do estômago á mistura com os arrotos de bacalháo assado do almoço.

De mulheres?! querem vocês ver!... disse com espanto Athanasio José da Silva.

Temos maroteira ? perguntou Pantaleão.

Ouçam lá. Minha mulher vendeu cinco brilhan- tes da pulseira de casamento que eu lhe dei, e não diz o que fez a um conto seiscentos e cincoenta mil réis sonante que recebeu pelos brilhantes. Aqui es- tá o que eu tenho a dizer.

Os três conferentes levantaram-se a um tempo, cruzaram as mãos sobre os osssos sacros respecti- vos, e começaram a passear cada um para seu lado.

Quem primeiro parou e fallou do seguinte modo foi o marido da maiata :

Physica e moralmente fallando, sua mulher, amigo Hermenegildo, vendendo os brilhantes e dis- pondo do dinheiro, deve dizer o que lhe fez, por força ou por geito. Eu por mim pegava d'um ar- rocho, e dizia-lhe: «ó minha amiga, você diz o que ÍQZ ao dinheiro, ou acaba se aqui hoje o mundo!»

Amigo Joaquim contrariou Pantaleão Não voto por esse systema, e queira perdoar. Vamos por partes. O amigo Fialho desconfia de sua mulher?

-Eu?

Sim : parece-lhe que ella doidejou e lhe fez al- guma patifaria ?

Eu sei cá, homem !. . . Vejo isto I. . . Ah ! esque- ciame de dizer que ella diz que deu o dinheiro aos pobres. .

Bem me fio eu n'isso ! Essa não amolo eu !

Os brilhantes do brasileiro 29

refutou Pantaleão, bascolejando nas queixadas um riso gallêgo Aos pobres 1 . . .

Também eu não a engulo ! concordou o ir- mão da Misericórdia Que diga o nome dos po- bres I Sim ! queremos saber quem são os pobres. Physica e moralmente fallando, se ella o não disser, está provado o crime.

isso está ! obtemperou Athanasio E cá, se a tratantada fosse comigo, era negocio feito, per- cebe você ?

Você que faria? perguntou Fialho.

Eu ? I Eu ? ! então você ainda me não conhece ? eu era dois pontapés, e rua, percebe você ?

Isso não são modos ! obstou Pantaleão Men- des Guimarães Amigo Fialho, você averigue esse caso com vagar.

Não tenho que averiguar! recalcitrou o ma- rido de Angela E' isto que lhes digo. Gastou o dinheiro e não diz em quê.

Então, convento com ella ! alvitrou o pru- dente Guimarães Um homem de créditos faz isto. Os amigos digam agora o que entenderem.

Eu opinou Joaquim José Bernardo, descas- cando os rebordos das ventas infectas physica e moralmente fallando, também vou para ahi, atten- dendo a que é melhor não dar escândalo. Você ad- ministra-lhe de comer e beber no convento, e não quer mais saber d'ella.

E se lhe pozer demanda a mulher ? ! lem- brou Athanasio.

Demanda? ora essal... accudiu Joaqaim Bernardo Demanda ?

3o Os brilhantes do brasileiro

Sim ; vamos que ella pede metade da fortuna, ou o dote de trinta contos com que o amigo Fialho a dotou?

O amigo Fialho não tem nada respondeu triumphantemente o arbitro Tudo que elle tem é nosso por uma escriptura de divida. Você tem pro- curação d'essa mulher?

Tenho.

Então que lhe pegue com um trapo, physica e. . .

Pelo que ouço interrompeu Fialho vocês, amigos, decidem que minha mulher se porta mal...

Pois isso ! confirmou Pantaleão Nem dado nem de graça ! Você inda duvida ? !

Eu, como não tenho desconfiado nem visto nada. . .

Podéra vêr I. . . redargiu o fiscal da Miseri- córdia.

E vocês tem ouvido fallar de minha mulher ? perguntou Fialho.

Olhe, isto de fallar, falla-se de todas respon- deu o marido da maiata. Nem a minha tem es- capado, cá por certos zuns-zuns que me chegaram aos ouvidos ; mas vem barrados pr*a mim, que eu sei quem tenho. . .

Pantaleão e Athanasio trocaram uns lances d'o- Ihos velhacos em que Hermenegildo entrou com o seu contingente de fino maroto.

Isso é verdade apoiou o marido de Francis- ca Ruiva A gente se for a dar ouvidos á cana- lha, está perdida com a sua vida. Um homem tem sempre rabos de palha. Mas eu ando tanto ao se- guro cá a respeito da minha honra, que desafio o

Os brilhantes do brasileiro 3r

mais pintado a dizer de minha mulher isto ou aquillo.

D'esta vez os olhos de Joaquim encontraram os de Athanasio, em quanto Fialho entre si dizia : «Estás arranjado com a virtude de tua mulher. .

Meus amigos, disse Athanasio a seu turno isto é terra de calumnias e aleivosias. A inveja vin- ga-se em nos ferir no mais sagrado de nossas al- mas. Aqui estou eu que . . .

O truculento homicida do caixeiro ia fazer o elo- gio da consorte, quando Barrosas bradou impacien- temente :

Então em que ficámos, senhores ?

Em que ficámos ? ! perguntou Athanasio.

Sim ! os amigos estão ahi a palavriar em obje- ctos que não vem á collecção. Ora que tenho eu que as suas mulheres sejam isto ou aquillo ? Se são boas e virtuosas, dêem graças a Deus, e tratem de reme- diar este contra-tempo,

Não tem rasão de se agoniar, amigo Fialho contrariou mansamente Pantaleao Isto veio ao ca- so de você perguntar se tinhamos onvido fallar de sua mulher. . .

Mas ouviram? accudiu arrebatado o esposo de Angela.

Eu não ! condisseram os três simultanea- mente ; mas você bem sabe, ajuntou Joaquim António, resalvando melhor juizo que a nós nin- guém dizia nada porque sabem que o Fialho e nós somos carne e unha,

Sim obtemperou Pantaleao Pôde ser que ha- ja alguma cousa ; mas pelo que eu sei não perde eHa.

32 Os brilhantes do brasileiro

Mas vocês entendem que o dinheiro não foi para esmolas. . . repisou o marido incommodado.

Sim eu. . . murmurou Joaquim.

A faliar a verdade. . . disse outro.

E' muita esmola. . . concluio o terceiro.

Não que o administrador disse que podia ser ! . . . sobreveio Fialho casquinando uma risada gosmenta.

O administrador é um asno! definiu laco nicamente Pantaleão.

Asno e mais alguma cousa 1 obtemperou Athanasio.

E então dizem vocês tornou o brasileiro que eu devo metter minha mulher n*um convento ?

Podéra... —apoiou o marido de Francisca Ruiva.

Deve dar esse exemplo de moral publica ! confirmou o marido da maiata.

E saber quem lhe comeu os brilhantes para se lhe dar cabo da casta ! addicionou o matador do caixeiro.

E isto como hade ser volveu meditativo o interrogador dos honrados juizes de sua dignidade

Eu não a quero vêr mais diante dos meus olhos !

Também nos parece acertado isso. . . con- veio um dos três.

Pois então, é mister que os meus amigos se encarreguem de lhe dizer que se recolha a um con- vento.

Não me nego a servil o, sr. Fialho, no que po- der ser-lhe útil disse magnanimamente Athanasio

Os amigos conhecem-se nas occasiões, percebe

Os brilhantes do brasileiro 33

você ? Quer então que vamos dizer a sua mulher que é preciso entrar n'um convento. . .

Se ella não disser a quem deu o dinheiro, no- meando os pobres um a um. . . condiciou Her- menegildo.

Apoiado ! approvou Athanasio Se o di- nheiro se foi em esmolas, então o caso muda muito de figura, acho eu.

Isso é verdade consentiu o fiscal da Mise- ricórdia \ mas é necessário que ella não torne a cahir na asneira de dar tão grandes esmolas» . . que eu, amigos e senhores meus, ainda que ella me dis- sesse os nomes dos pobres, havia de pôr de quaren- tona a galga ! . . . Em fim vamos . . . Amigo Fia- lho, descance em nós, e espere-nos aqui.

Sahiram os mensageiros, e ficou entregue ás con- solações do aíFectuoso dono da casa o agonisado marido.

Considerações plásticas

D. Angela descia as escadas, encaminhando se á administração, quando foi intimada a comparecer em juizo. Pela primeira vez, em sua vida de vinte e seis annos, encarava um official de justiça, cujo semblante carregado e voz cavernosa a trespassou de susto. O esbirro caminhava de par com ella, dando ao acto uma solemnidade policial que fez es- panto nos logistas visinhos. Alguns enviaram os marçanos na colla da pallida mulher de Fialho, e ficaram conjecturando, com variadas hypotheses, por que iria capturada a visinha.

O administrador, ao ver Angela, ergueu-se em respeitosa postura, postergando o estylo costumado n'esta ordem de funccionarios, cujo lance de olhos é sempre fulminante, denotando, nos vincos da fron- te severa, a carranca da justiça que os anima e afeia.

Esta desusada urbanidade do magistrado pôde explical-a a bellesa de Angela. A condição d'um

Os brilhantes do brasileiro 35

administrador de bairro, no exercício de suas func- ções, não ha ahi compendio de civilidade que a pula e amacie tanto como uns olhos meigos que obrigam a respeito e amor quando intentam so- mente pedir commiseração.

A esposa de Hermenegildo Fialho, se não era formosa para causar assombros, tinha direito a ser considerada uma das mais galantes esposas de bra- sileiros, os quaes, n'aquelle tempo, eram os usufru- ctuarios mais ou menos exclusivos das peregrinas burguezas do Porto.

Angela não era portuense, como opportunamente se dirá ; mas, no rosado sadio da musculatura e re- dondez das formas, pertencia á espécie de belleza sohda e tanto ou quê patriarchal que distinguia e avantajava, sobre todas, as senhoras da cidade eter- na de ha quinze annos para além. E, como vem de molde, deixarei aqui em estylo lamentoso uma sau- dade á memoria d*aquella raça forte de mulheres quasi extincta, e hoje representada por suas filhas, dessoradas no ambiente impuro dos collegios, e adel- gaçadas por uma alimentação franceza que lhes de- pauperou a opulência do sangue herdado.

Orvalharam se-me, ha dias, estes olhos, quando passados annos de ausência do grande confluente das famílias do Porto, volvi ás praias da Foz, e re- conheci a custo as bellas damas da minha moci- dade. Fora de lisonja, eram ainda grandiosas remi- niscências dos explendores da formosura antiga, sem impedimento da superabundância de tecidos moles que lhes almofadavam as espáduas e qua- dris : o que porém entristecia era ver as filhas d'es-

^6 0$ brilhantes do brasileiro

tas sadias mães. Britannicamente esgrouviadas, de- latando a magresa na adherencia dos trajos aos ossos escarnados, as filhas das sebáceas bellesas de i85o assustam a alma devotada mais fervorosa- mente ao ideal; que a pailidez e o osso não é o prisma por onde poetas costumam entrever as des- lumbrantes coisas do céo.

Além d'outras causas doeste deplorável estiola- mento da geração nova, insisto nas que argui : collegio e alimentação. O collegio em que o espiri- to atazanado pelo supplicio lento da geographia, da historia e da grammatica, perde a seiva nativa, e refaz-se a expensas do corpo; de maneira que a idéa se enriquece ao passo que o musculo deteriora : questão fundamental de physiologia, que importa ser estudada nos tratadistas especiaes. Quanto á alimentação, é sabido e notório o progresso peri- goso da culinária portuense n'estes últimos vinte annos. A cosinha tornou-se a antecâmara da sepul- tura. As intoxicações, causadas pelas especiarias, sobre-excedem a mortandade feita pelo verdête, pe- los fósforos e pelo acido prussico.

Ora é de saber que as mães d'estas meninas apenas aprenderam o necessário de leitura e es- cripta para sustentar uma correspondência honesta e parcimoniosa com os sujeitos adquados ao intento licito da familia e da procreação. De espirito não consummiam coisa que lhes fizesse falta no corpo. A naturesa florecia e fructificava desempedidamente. Pôde ser que a mulher ignorasse a forma do globo e a situação geographica da Abissínia; mas, cm compensação, o rosado das faces e o alabastrino

Os brilhantes do brasileiro 3j

dos hombros pareciam estar pedindo azas para dis- putar formosura a uns anjos que vos encantam por entre as folhagens e festões dourados das cathe- draes. Rasoavel ignorância e solida nutrição expli- cam a robustez d'aquella donosa plêiade de cheru- bins portuenses que levavam os olhos do forasteiro. Homem de Lisboa, que entrasse no theatro de S. João, recordava-se de S. Carlos como quem se lembra de ter visto aquellas almas brancas e Uvi- das das formidáveis visões do florentino ; ao mesmo passo que os rostos carminados das filhas do norte realisavam o mais vivaz colorido do pincel flamengo.

Pois saibam que vae volatisar se da terra portu gueza essa raça de mulheres que nossos filhos não hão de ver. Eu não deploro este desappareci- mento somente por que me sinto levado na corrente em que derivam as graças plásticas do meu tempo : esse egoísmo não cabe na minha alma. Lamento, s'obre tudo, a sorte dos meus netos, se elles tive- rem bastante espirito para se não contentarem com o amor dos puros espíritos. Volvidos cincoenta an- nos, n'este andar, se a mulher assim continua a su- btilisar-se, a conservação da espécie não me parece provável. A meu ver, o fim do mundo está se an- nunciando na delgadeza, seccura e descarnamento da fêmea. Virá uma geração em que mulher e ho- mem se defrontem, não para se quererem e ama- rem, senão para discutirem egualdade de direitos entre espirito e espirito, entre osso e osso. Chegado o género humano a essa extremidade, acabou-se este globo, que me parece ser o mais ordinário de todos.

Não era, todavia, assim quando existiam mulhe-

3& Os brilhantes do brasileiro

res como a do brasileiro Hermenegil(jo Fialho Bar rosas.

Alta e refeita ; cabellos castanhos ; testa larga e escantuda; sobrolhos 'pretos ; pálpebras amorteci- das com aquelle doce cançasso do somno irresisti- vel ; faces que as rosas não deixam ser trigueiras, mas que um primoroso apreciador do bello desejaria menos carminadas ; beiços arqueados pelo molde da pequena bocca, ainda pequena quando o riso mostra o esmalte dos dentes; pescoço alto, quebrando em on- dulações de jaspe e torneios de espáduas e n'outras ondulações que o cantor das Ilhas dos Amores sa- bia descrever lindamente colhendo nos pomares as suas graciosas analogias : tal era Angela. Tal era ? ! Que presumpção ! Quem soube ahi descrever uma bellesa mediana por maneira que vingasse retra- tal-a no espirito do leitor ? E que direi da mulher que, á feição de Angela, sobrelevava ás de mais gra- ças o realce d'um suavissimo colorido de candidez em que transluzia alma sublimada e cheia de poé- ticas tristezas!

Que admira, pois, que o administrador do bairro cortejasse com aíFavel sombra a esposa de Fialho, sendo que, de antemão, propendia a protegel-a das iras um tanto brutas do mazorral marido ?

Minha senhora disse elle, mandando retirar os circumstantes, menos a criada Seu marido accusa esta mulher de lhe haver roubado uns bri- lhantes . . .

Meu marido engana-se —interrompeu Angela Os brilhantes, que a minha criada vendeu, fui eu quem os mandou vender.

Os brilhantes do brasileiro 3g

Mas a sua criada confessou ter sido ella quem... sei que ella confessou ; mas não creia vossa

senhoria senão o que eu lhe digo Esta mulher está innocente. Pôde vossa senhoria mandal-a embora sem receio, que estou prompta a declarar por es- cripto que mandei vender os brilhantes da minha pulseira.

O funccionario sentia sinceramente não ter mais que fazer n'este lance, em harmonia com o código administrativo. Quizera elle, com qualquer motivo judicial, prolongar a sua interferência nos negócios domésticos da linda creatura ; mas não lhe occorria coisa que lhe desculpasse a curiosidade, ou, mais exactamente, a fulminante ternura que o alvoraça- ra. Não obstante o acanhamento natural d'estas pai- xões de assalto, o bacharel, que não era verde, e podia com a gravidade do aspecto honestar o in- tento, animou-se a entrar no mysterio dos brilhantes com a seguinte pergunta :

Vossa excellencia tem bastante confiança no amor de seu marido ?

Angela poz os brandos olhos no semblante do interrogador, silenciosa e desconfiada do intento de tal pergunta.

O administrador insistiu, esclarecendo :

Pergunto eu, minha senhora, se provada a in- nocencia da sua criada, vossa excellencia consegui- rá explicar a venda dos brilhantes sem irritar o gé- nio de seu marido, motivando suspeitas. ..

Atalhou Angela :

Mandei vender os brilhantes para fazer bem a uma pessoa infeliz.

40 Os brilhantes do brasileiro

O funccionario receava transpor muito além a ba- lisa do seu officio, averiguando a espécie de philan- tropia que uma esposa honesta escondia de seu ma- rido ; mas o peccado da curiosidade, desculpado pela bellesa da interrogada, esporeou-o até á indis- crição de perguntar lhe :

E essa pessoa infeliz é... é pessoa de quem seu marido possa .. . suspeitar... relações... me- nos louváveis ? . . .

Angela doeu-se, ou, mais ao certo, pareceu cor- rida da pergunta, corando, e baixando os olhos si- lenciosa.

O administrador não instou, convencido da im- puresa da caridade. Faltava solida base para tal juizo ; mas a malicia humana, se algumas vezes in- fama, adivinha outras. D'esta vez, porém, o magis- trado adivinhava apenas que n'aquelle mysterio o coração era grande parte.

Bem disse elle, violentando-se a respeitar o segredo alheio de sua alçada O que tenho ave- riguado é que vossa excellencia mandou vender os seus brilhantes, e que a criada obedeceu ás ordens de sua ama.

Certamente.

Pôde por tanto vossa excellencia retirar-se, quando quizer, e a sua criada também. E estima- rei — ajuntou elle com intencional mas delicada iro- nia — que vossa excellencia comsiga conciliar á sua boa acção a complacência do sr. Fialho.

Deu ares de o não perceber a pallida esposa do brasileiro. Erguueu-se, e sahiu. A criada, limpando as lagrimas, acompanhou-a.

VI

Amigos do seu amigo

Hermenegildo Fialho estava afflicto com a de- mora dos três parlamentarios enviados á esposa. Não cuidava elle que Angela comparecesse na poli- cia, ou se havia esquecido de ter concordado com a authoridade sobre a urgência da acareação entre ama e criada.

A impaciência dava-lhe empurrões. Gahia aquelle sujeito sobre as molas das othomanas flácidas e fa- zia ringir os aços. Resaltava com pasmosos saltos d'um coxim para outro, e parecia tentar um suici- dio por despejo da janella á calçada dos Clérigos, quando enxergou na Praça-nova Joaquim António Bernardo, Pantaleão Mendes e Athanasio José da Silva.

Os solicitadores da honra de Fialho caminhavam á pressa e com ar de embezerrados. O brasileiro pregara os olhos n'elles, a vêr se lhes lia alguma coisa nas physionomias, do segundo andar onde

4^ Os brilhantes do brasileiro

os outros Ihejviam^a cara grande e escarlate como a lua dos theatros.

O homem dá-lhe ataque apopletico ! disse Athanasio a Pantaleão.

Asno será elle se lhe der algum ataque! observou Joaquim António, empregando a gramma- tica e a phylosophia do seu uso.

Qual ataque nem qual diabo ! corroborou Pantaleão Mendes Um homem é um homem, sabe você, amigo Athanasio ? E mulheres não faltam, physica e moralmente fallando. Haja dinheiro e saúde : o mais, regalorio !

Pois sim redarguiu Athanasio, quando su- biam a escada ; mas você não se pôr a dizer isto nem aquillo da mulher, percebe você ? Conte o que se passou, e deixe obrar a naturesa.

Não me conselhos... resmuneou Panta- leão — Deixe o negocio por minha conta ; que a honra dos meus amigos é como se fosse a minha.

Hermenegildo estava no topo da escada com os braços em cruz no costado, e o queixo debaixo ca- bido e apoiado sobre o papo dos bócios.

Então que ha? perguntou elle esgazeando pelas caras homogéneas dos três um relance d'olhos penetrante.

Vamos conversar respondeu Pantaleão, le- vando o de braço dado para a sala.

Vocês tardaram tanto! volveu o brasileiro.

Estivemos á espera que a sua mulher se despa- chasse lá da policia ; depois, palavra pucha palavra, e deitou-nos a conferencia a esta hora explicou Athanasio, encarregando Pantaleão, por um gesto

Os brilhantes do brasileiro 43

de cabeça, de ser o relator dos casos acontecidos. O qual tirou do interior umas palavras, cortadas por pausas que davam á narrativa uns toques de se- riedade, prejudicando a Índole ridicula da scena.

Senhor compadre disse o marido de Fran- cisca Ruiva. Sua mulher não estava em casa ; aqui o amigo Joquim foi-lhe na piugada, e soubemos que ella tinha sido chamada á presença do administra- dor. Esperamos uma hora e pico. N'isto chegou ella a mais a criada. Estávamos sentados no banco do pateo, quando sua mulher deu comnosco, e fez-se amarella como esse colete que você traz vestido. Erguemo-nos, fizemos lhe as nossas cortezias, e dis- se eu que lhe queríamos uma palavrinha em parti- cular. Mandou-nos subir, e chamou para dentro que nos abrissem a sala de visitas. Entrámos, e d'ahi a pouco chegou ella, assim com modos de quem se não importava muito comnosco. Sentou-se, e per- guntou o que quedamos ; não foi isto, amigo Atha- nasio ?

Tal e qual ; é como você diz.

Eu tomei a palavra, e disse que o meu honra- do compadre e amigo velho Hermenegildo Fialho Barrosas nos mandara os três afim de averiguar a quem a senhora D. Angela deu um conto seiscentos e cincoenta mil réis de esmola. E vae ella esteve um quasi nada a pensar, e respondeu que me não dizia a mim nem a ninguém o que não tinha dito a seu homem, entende o amigo ? Depois, aqui o nosso Athanasio tomou a palavra, e começou-lhe a dar práqui-prácolá, porque torna e deixa, a senhora deve confessar o que fez ao dinheiro, quem lh'o apanhou.

44 Os brilhantes do brasileiro

que qualidade de pessoa era; porque as mulheres não podem dispor assim dos capitães dos seus ho- mens, aliás ninguém pôde contar com o que é seu ; e de mais a mais dar um conto seiscentos e cincoen- ta mil réis sem dizer a quem, era caso para descon- fiar de certas coisas muito feias, etc. etc. etc. Em- fim, o amigo Athanasio batalhou com ella, apertou-a por todos os lados, mas respondeu você, compadre? não respondeu ? nem ella ! Vae depois, o amigo Joa- quim fallou também com toda a prudência e corte- zia, discorrendo a respeito da honra d'um liomem, e também não fez nada. Emfim, como ella estivesse a ouvir sem responder uma nem duas, eu tomei a palavra, e disse que o senhor seu marido lhe orde- nava que se recolhesse sem perda de tempo a um convento. Agora é que são ellas 1 proseguiu Pan- taleão Mendes batendo nas próprias pernas duas palmadas que soaram como se as ponderosas mãos batessem nas pernas d'um Cileno de pedra. Que cuida você, compadre, que ella respondeu ? ! Que...

Que não ia! atalhou o brasileiro, careteando com olhos e bocca e nariz uma temerosa carranca de cólera.

Isso mesmo ! conclamaram os três.

«Não vou» accrescentou o relator mão vou para convento» disse ella. E disse mais: tmeu marido tomou conta das jóias que eram' de minha mãe ; que fique com o dinheiro dos brilhantes, e que me mande o resto; se quizer mandar; se não quizer, que fique com tudo. Convento é que não.» Ha de ir! gritei eu; ha de ir, que seu marido é quem governa na senhora. aNão vou» teimou ella.

Os brilhantes do brasileiro 45

Então que quer a senhora fazer, se o seu homem a deixar, sem comer, nem beber, nem casa ? «Tra- balharei para viver ; e, se morrer de fome, Deus me dará o céo, porque morrerei honrada e innocente.» Foi o que ella disse, e nós quedamos a olhar uns p'ros os outros. Disse-lhe então o amigo Athanasio que dissesse a quem deu o dinheiro, se estava hon- rada e innocente.

E vae ella. . . accudiu o brasileiro anciada- mente.

Respondeu que se confessava a Deus, que sabia a pureza do seu coração. Não foi isto, sr. Athanasio?

Sem tirar nem pôr.

Tornei a fazer-lhe outra predica proseguiu Pantaleão. Disse-lhe tudo quanto me lembrou em termos commedidos, não sei se me entende ? Não acreditei que ella fosse honrada nem innocente por varias rasões. Ouviu-me tudo com cara, e poz- se de pé, e disse que, se lhe não quedamos mais nada, que podíamos ir á nossa vida. Veja você que atrevida má-creação a da tal senhora 1 Impor d'este modo três amigos de seu marido, que iam alli tra- tar d'um negocio muito serio 1 Coisa assim nunca me aconteceu na minha vida ; e pela honra d'um amigo velho é que se pôde tragar d'estes bocados ! A' vista d'isto, a nossa commissão estava acabada. Não tínhamos que fazer alli. Pegámos nos chapéos e nas bengalas, e sahimos. Aqui tem o acontecido. Você fará o que quizer, compadre.

Hermenegildo começou a passear na sala, jogan- do de braços por maneira que parecia ensaiar-se

46 Os brilhantes do brasileiro

com elles para esvoaçar. Os amigos contemplavam- no com umas caras tristes, quando um criado en- trou com uma bandeja, na qual transparecia em christaes a opala de antiquíssimos vinhos, lardea- dos de marmelada, e outras fructas assucaradas que negaceavam o apetite. O bisarro dono da casa con- vidou os quatro attribulados a honrarem a sua gar- rafeira, e sem esforço obteve que' todos, excepto Fialho, rebatessem os Ímpetos da sua angustia com alguns tragos de licor que investe os ânimos de for- ça reagente, e infunde stoicismo nas mais sandias almas.

Compadre, beba d'este disse Athanasio sob- pondo ao nariz do amigo afflicto o cálix aromático.

Tire isso p'ra ! refusou Fialho, sacudindo a cabeça, e fechando os olhos, talvez, á tentação. E resmuneou, entre trágico e cómico :

Se fosse veneno, mettia-o no corpo. . .

Não seja asno ! accudiu com hombridade Joaquim António Bernardo pois você ainda está n'essa Matar-se por causa de mulheres I Está a ler o nosso homem t ajuntou o marido da maiata, gargalhando com applauso dos circumstantes que bascolejavam o vinho e o riso entre as mandíbulas. Ingula esse que tem nas goelas, e beba, ami- go Fialho ! Mulheres 1 . . . Com que então você, com amigos e fortuna, era capaz de tomar veneno p'rá- mor d'uma desaustinada de mulher que se portou mal ! Ella que se mate, se quízer ; e você viva re- galadamente com cento e noventa contos que tem. Faça de conta que ella morreu, e trate de arranjar outra. . .

Os brilhantes do brasileiro 4']

Ou duas, que é melhor emendou Athana- sio.

Ou três que é mais peitoral ampliou Pan- taleão, jpondo a mão suavemente nos gorgomilos por onde ia passando um damasco.

O dono da casa, invejoso do espirito dos seus amigos, accrescentou ;

Quatro, quatro, para não ser pernão. . . O da- do é sete fêmeas para cada macho.

Macho será você ! replicou Athanasio com a boca a disbordar de marmelada.

Eis aqui o caixilho luctuoso em que incuadrava a agonia de Hermenegildo. Por pouco não descam- bava em orgia o tribunal de homens congregados para julgar a deshonra de Angela, e salvar a digni- dade do marido. Paliavam todos a um tempo, al- vitrando planos tendentes a evitar que a esposa in- fiel tivesse parte nos haveres do brasileiro. Para poder entrar n*esta secção importante com inergia, Fialho sopeteou duas bolachas americanas n'um cá- lix do de 1806, e poz a mão instinctivamente no bu- cho aquecido, e capaz de competir em calor com o coração visinho. Os amigos, fazendo-o beber segan- do cálix, applaudiam o seu triumpho, e juravam que, ao terceiro, a honra do seu amigo ficaria lavada co- mo as goelas.

Apoz longos debates, em que todos fallavam á mistura, convieram em que Fialho, como commcr- ciante que era, se obrigasse por escriptura a di- vidas excedentes ao valor dos seus bens immoveis. e desde logo alienasse os titulos bancários, e se co- zesse com o dinheiro. A soberana rasaoque poz os

48 Os brilhantes do brasileiro

cinco alvitristas n'este accordo, deve-se a Athana- sio, o qual raciocinara d'esta laia :

Amigo e compadre Fialho, não ha que duvi- dar : sua mulher tem homem a quem deu o dinhei- ro. Este homem hade aconselhal-a a separar-se de você para se dividirem os bens, percebe você ? Se você os tiver, que remédio ha senão repartil-os. O maior logro e castigo que você pôde pregar a ella e mais ao patife é não ter nada que repartir? Eim ?

A resposta geral foi um brado unisono. E logo, no afogo do enthusiasmo, sacrificaram a quarta gar- rafa e uma bandeja de pasteis de Santa Clara.

Mas, se ella não quizer sahir de casa? per- guntou Barrosas, acalmado o barulho.

Você não tem casa. A sua casa está vendi- da. Um de nós, quando o compadre quizer, vae to- mar posse, e sua mulher recebe intimação judicial para despejo, percebe você? respondeu enfatica- mente Athanasio.

Diz você bem, compadre obtemperou Fia- lho — que eu tenho procuração d'ella em branco. Faz-se escriptura da venda da casa. E n'esse caso é preciso avisal-a que se mude quanto antes. Vamos ver se ella sahe ao bem.

Duvido; atalhou Joaquim António Bernardo aquillo é mulher finória e soberba. Sem ser por justiça, não a põe o amigo fora de casa.

Continuaram debatendo questões jurídicas ao pro- pósito, em que as sandices se disputavam primasia, até que, chegada a hora de jantar, Hermenegildo foi hospedar-se em casa do compadre, reservando para a reunião do dia seguinte o plano definitivo.

VII

Revelações cómicas

A's onze da noite d'aquelle dia, Hermenegildo Fialho rebolava-se no enxergão de pennas, e gemia uns gemidos que soavam como regougo de raposa. A comadre foi escutal-o á porta, e veio dizer ao marido que o compadre estava a gemer de sauda- des da indigna mulher. Ageitou-se á esposa escan- dalisada boa occasião de cortar nas mulheres des- leaes; o marido, porém, que tinha, ás vezes, cons- cienciosas brutalidades, tapou-lhe os respiradoiros da ira, murmurando :

Galla-te, calla-te; e não me cantes tretas a mim . . .

A esposa incolheu-se, odiou mais do intimo o marido, e gosou o néctar dos deuses, o prazer da vingança antecipada, e a prelibaçao da vingança porvir. Ah ! Athanasios, Athanasios ! . . .

Ergueu-se o verdugo de caixeiros deshonestos. (Veja o cap. III) e foi ao quarto do hospede.

4

So Os brilhantes do brasileiro

Que tem, compadre? perguntou elle Não pôde dormir ? Estranha a cama, ou que é ?

E' uma dor de barriga respondeu o triste, apanhando nas mãos a parte dorida, e acocorando se Fez-me mal o empadão das ostras. Dá-me vo um bocado de Hollanda, a ver se esmôo este diabo de marisco?

Fialho sugou na botija, e d'ahi a pouco tinha es- moido o empadão, e rebentava-lhe tanta saúde pela cara fora que parecia desafiar todas as ostras do sr. Bocage a perturbar-lhe o somno.

Mas o compadre, sentando-se-lhe na cama, per- guntou :

Quer você cavaco ? Ainda agora deram as onze.

lá; vamos conversar, que eu estou esperti- nado.

Você nunca desconfiou de sua mulher ?

Eu nunca.

Não ia por casa ninguém. . .

Nem alma viva, a não ser a costureira. Visitas foi coisa que nunca me entraram das portas p'ra dentro, afora você e mais a sua patroa.

Mas no theatro . . .

Theatro! carocha t foi logar onde nunca a levei . . .

E na missa ?

Missa ! . . . não era moda em minha casa . . . Você bem sabe que a gente no Brasil perde o pêllo. Logo que casei disse-lhe que isto de missa era uma historia. Ella ao principio ficou estarreci- da: mas foi-se afazendo. Comprei-lhe um oratório

Os brilhantes do brasileiro 5i

e dei'Ih'o p'ra que resasse em casa, se quizesse. E o caso é que ella e mais a criada, aos domingos, fechavam-se no quarto duas horas a resar ladainhas. Ora fiem-se nas mulheres resadeiras ! . . . Olhe você, compadre, se a religião não é uma patranha !

Patranha 1 e que grande patranha !

A sua mulher resa ?

Nem se sabe benzer, acho eu.

Faz ella muito bem; mas vae á missa dos Congregados ao meio dia, que eu a tenho visto entrar na egreja.

Vae por dar um passeio, e mais os pequenos, percebe você? Ora diga me cá, compadre conti- nuou o previsto Athanasio sem dar logar a que o hospede averiguasse coisas tendentes a provar que a mulher do seu amigo conciliava a pureza dos cos- tumes com a ignorância do signal da cruz eu ouvi dizer, e sei com certeza, que você tinha seus amo- res fora de casa. Nunca lhe perguntei nada a tal respeito por se não oíFerecer occasião ; mas eu sei que você tinha em S. Roque da Lameira uma mo- çoila da sua terra, chamada Rosa ; e outra na sua quinta da Cruz da Regateira, chamada Benedicta.

Não lhe mentiram. Confesso o meu peccado; mas dou-lhe a rasão. Minha mulher não me tinha amor de casta nenhuma. Tratava-me como se trata um tio. Entrava e sahia a semana sem me dar um beijo, nem se lhe importava que eu comesse ou não comesse. Você sabe que eu sou atreito a mo- léstia de fígado, e que me sinto alliviado com papas de linhaça ; pois ella mandava-me pôr as ca- taplasmas pelo galego ! Diga-me se uma boa esposa

52 Os brilhantes do brasileiro

consente que alguém ponha as cataplasmas em seu marido!... Um homem, quando anda pelos cincoen- ta, precisa ser affagado, não é verdade ? . . . E p'ra isso é que eu me casei com uma rapariga pobre, apesar de ser fidalga, formando tenção de a deixar rica. Imagine você que ella nunca me fez um cari- nho. A' minha beira estava sempre triste como a noite. Nunca se ria de chalaça que eu lhe dissesse ; e depois que eu me deitava ficava ella duas horas a costurar, mais duas horas a resar, e via-se mes- mo que me aborrecia. Aqui tem você a rasão por que eu trouxe da minha terra duas raparigas boas e bonitas que me amam com todo o aífecto, e cho- ram, quando se passam três dias sem eu ir.

E sua mulher desconfiava?

Sabia tudo, por que um brejeiro d'um caixeiro, que eu puz fora, lh'o mandou contar n'uma carta.

E ella que fez ?

Deu-me a carta, e disse que não tornasse a fa- zer os meus caixeiros sabedores dos meus desvarios.

E não se zangou ! ?

Nada.

Ora essa!. . .

Pois se ella não me tinha amor nenhum!.. . Você não intendeu ainda?

Agora percebo... Mais uma rasão para ter- mos a certesa de que ella fazia outro tanto.

Pois isso é claro como a luz que nos está alu- miando... Chegue-me d'ahi a genebra, que estou com azia.

O brasileiro embocou a botija, gorgolejou três bons tragos, e proseguiu:

Os brilhantes do brasileiro 53

Se ella me tivesse amor, fazia o diabo em casa, logo que soubesse das minhas asneiras, não é ver- dade? Pois nunca me jogou a mais pequena cha- laça a tal respeito ! . . .

Então não ha que duvidar: evidenciou Atha- nasio Mendes sua mulher tinha com quem se dis- trahir-, e agora percebo eu como é que ella está in- nocente. Quer dizer na sua que está tão innocente como você, seu maganão !

Athanasio riu-se do chiste do próprio remoque.

Pois sim reflectiu judiciosamente Fialho mas você bem sabe que nós, os homens, não so- mos mulheres. Elias tem outra casta de obrigações. Se a mulher for egual ao marido, então não ha honra nem vergonha n'este mundo, não acha?

Diz bem, compadre ; mas é que ellas abusam do exemplo que os homens dão, percebe você ?

Isso também é verdade— concordou Hermene- gildo, fechando o olho esquerdo.

Você parece que quer dormir.. . notou o hos- pede.

Sim, elle agora parece que chega resmungou Fialho, fechando o olho direito.

Minutos depois, esta victima deplorável da per versão dos costumes . . . roncava.

VIII

Revelações tristes

A'quella hora alta da noite, Angela, ajoelhada diante do sanctuario, pedia á Virgem que lhe inspi- rasse o melhor meio de cumprir os seus deveres na apertada situação em que se via.

O ar innocente d'esta mulher que se ajoelha como infeliz sem culpa, deve tocar o animo de quem vae lendo isto, e desde o começo do livro pende a desconfiar da virtude da esposa do brasileiro. E', pois, tempo de antepararmos da involuntária aleivo- sia a mulher pura.

Na margem direita do Lima, ergue-se por entre arvores seculares o antiquissimo paço de Gondar, cujo decimo oitavo senhor, no tempo da invasão franceza, era Simão de Noronha Barbosa, capitão de cavallaria, gentil e valente, em annosflorentissimos.

Ainda não tinha dezeseis quando amou a filha de um seu caseiro, com quem queria casar se. Os pa- rentes e o tutor debalde lhe anteposeram os estor-

Os brilhantes do brasileiro 55

vos da lei e ainda ordens expressas da regência. A mulher humilde chegou a ser-lhe arrebatada e presa ; mas a passagem da onda revolucionaria socavou as portas ferradas da cadeia de Ponte do Lima, e re- meçou-lhe aos braços a formosa encarcerada. Certo general de Napoleão mandou a um vigário que os casasse em sua presença, e galardoou assim a de- voção, talvez forçada, do capitão portuguez ao leão de Austerlitz.

Simão de Noronha foi ferido mortalmente no re- contro de Amarante. A esposa, que o acompanha- va, quando o viu acutilado e muribundo entre as garras dos patriotas, que cevavam suas iras mais encarniçadamente nos jacobinos, morreu de puro terror, suíFocada por um golpho de sangue. Era uma fidalga alma a d'aquella filha do povo !

A piedade d'alguns populares salvou o capitão de ser arrastado nas ruas de Amarante.

Apoz seis mezes de curativo, recolheu-se ao seu paço de Gondar, e levou comsigo o esqueleto mal escarnado de sua mulher. Dias depois, entrou n'um mosteiro, e amortalhou-se no habito de noviço be- nedictino.

Antes, porém, de findo o noviciado, Simão viu casualmente sua prima D. Maria d' Antas. Era uma senhora de formosura rara. Não direi que o rasgar o noviço o habito fosse um preito digno d'esta no- tável dama ; nem me espantaria que toda a congre- gação benedictina despisse as túnicas, e os frades se esmurraçassem por amor d'ella. Mulheres assim aluiriam conventos, se lhes fosse consentido visitar os ; primos. Por um de seus cabellos arrastariam

56 Os brilhantes do brasileiro

communidades, e, d'um volver d'olhos, consumma- riam a empresa que não bastaram séculos a vingar.

D. Maria d' Antas, filha d'um desembargador da supplicação, trouxera de Lisboa, aos vinte e cinco annos, o coração derrancado. Os seus costumes e manhas não edificavam ninguém ; mas indoude- ciam os mais guapos e galhardos fidalgos do Alto Minho. Além de bella e palavrosa, a fidalga d'Antas era guapa cavalleira, monteava lobos, matava pa- tos bravos, e tinha de mulher, apenas, a cara que ficaria bem n'um anjo, e as fraquesas que vence- riam a rebeldia dos demónios.

Simão de Noronha, em 1812, morava no seu solar das margens do Lima. O esqueleto da esposa e o habito de noviço eram apenas umas lembran- ças de infortúnios remotos. A casa ameiada de Gon- dar recebia a luz e os aromas das primaveras no- vas pelas rasgadas janellas onde, ás vezes, appare- cia uma mulher alta vestida de branco. Era D. Ma- ria d' Antas, não esposa, mas prima, titulo res- peitável com que ambos se abroquellavam da infa- mação. E', porém, de notar que nenhum se preoc- cupava dos rumores públicos acerca daquelle vive- rem sós e desligados d'outros parentes sob o mes- mo tecto.

Devolvidos oito annos, a calumnia tinha mais onde morder. Maria d'Antas, sem pejo nem res- guardo, apparecia com uma creança d'um anno nos braços.

Mas esta creança, antes de prefazer dois annos, ficou sem mãe. As janellas do paço de Gondar techaram-se outra vez. Simão de Noronha desap>

Os brilhantes do brasileiro 5j

pareceu, emquanto na egreja parochial se entoa- vam os responsos á volta da eça de D. Maria. A creança foi levada a Vianna, onde vivia casada uma irmã do fidalgo. E o espanto geral dos visinhos não desistiu de cavar na sepultura da formosa desvai- rada até descobrir que ella, n uma vertigem de ciú- me, fora estrangulada. Isto de cavar na campa da morta vem aqui figuradamente. Ninguém profanou a sepultura de D. Maria. O caso execrando sou- be-se quando um morgado dos Arcos de Vai de Vez contou aos seus amigos, não sem fatuidade, que Simão de Noronha matara sua prima, instantes de- pois que encontrara entre moitas de roseiras um pu- nhal com a firma d'elle revelador, que também era primo. Ora este punhal lhe saltara da algibeira da vestia castelhana, quando o fugitivo pulava da ja- nella ao jardim. *

Doze annos depois, Simão de Noronha desem- barcava no Mindêllo com a patente de coronel. Quarenta e seis annos teria : mas apresentava adian- tada velhice.

Finda a guerra e reformado em general, o senhor de Gondar foi viver no seu arruinado palacete de Ponte do Lima, e não voltou á casa solarenga.

De longe a longe, parava á porta do general uma

^ As miudesas referidas vão quasi textualmente trasladadas d'uma ementa marginal escripta n'um livro de genealogias, que principia nos reis de Córdova e termina em Simão de Noronha Barbosa, 18." senhor do Paço de Gondar. Os que des- presam os manuscriptos genealógicos atiram fora o melhor oiro da historia civil, politica e religiosa da nossa terra.

58 Os brilhantes do brasileiro

liteira, d'onde apeava, juntamente com sua criada edosa, uma menina que contaria entre quatorze e dezeseis annos. As pessoas, que tinham conhe- cido D. Maria d' Antas, decidiram logo que a bella hospeda do general era filha d'aquella mallograda dama e de Simão de Noronha. De feito, era a crean- ça que treze annos antes havia, talvez, sido arreba- tada dos braços de sua mãe, pela mão que lhe afo- gara o nome no sangue da garganta.

Era Angela.

Demorava-se a hospeda um dia em Ponte do Li- ma, e voltava com sua criada, para Vianna, onde residia querida extremosamente da irmã de seu pae.

O general não dava nem recebia caricias. A pre- sença da filha não descondensava de sobra a alma d'elle as trevas da consciência que lhe escurenta- vam tudo. A's vezes quedava-se a contemplar An- gela largo espaço. Marejavam-se-lhe os olhos, e afundavam-se-lhe as rugas da fronte. E' que via Ma- ria d' Antas na filha, e em si o algoz. Depois, aíías- tava-se d'ella carrancudo e desabrido ; por maneira que Angela não visitava seu pae sem ser compel- lida. Cobraralhe medo antes de sentir no coração a ternura de filha.

E a do general por ella raros instantes entreluzia nas sombras do rosto carregado. De natural um tan- to selvagem, peorado por infortúnios que endure- cem a condição, o sr. de Gondar parecia-se com todos os pacs que não viram crescer hora a hora os filhos, tanto mais entranhados n'alma quanto pungiu o susto de os perder. Deixar uma filha com

Os brilhantes do brasileiro 5g

dois mezes, e volver a tel-a de quatorze annos, é como adoptar uma creatura d'outrem, é ter perdi- do o direito á consolação de amar ardentemente o ser que se formou ao calor dos nossos beijos. N'esta compensação entra beneficio de Deus : a não ser assim, bastaria o sangue para encher de súbito amor o coração. O sangue ! Retrocede cem annos quem faz conta do sangue o extracto utii do bolo ali- mentar — no vinculo espiritual de pae e filho, al- liança sacratíssima, que se faz de lagrimas e não de sangue.

Angela, suposta herdeira do general Noronha, era amada em dobro : formosa e rica. Amavam-na, pediam-na uns morgados que ella nunca tinha visto nem conhecido de nome. As solicitações por escri- pta ao mysantropò velho não recebiam resposta. Ninguém ousava dirigir-se em pessoa a um homem que dizia aos criados: «não conheço ninguém».

D. Beatriz, a irmã do general, tinha sido a me- dianeira dos primeiros pretendentes. O pae de An- gela, no propósito de cortar futuras negociações, ordenou seccamente a sua irmã que mudasse An- gela para a companhia d^outra tia professa nas be- nedictinas de Vianna, se a não queria solteira em sua casa.

E Angela abençoava a resistência do pae. Não conhecia uns, e não amava nenhum dos fidalgos que trcs séculos antes porfiariam em merecel-a acutilan- do-se reciprocamente. Os mais destros e insofíri- dos o que faziam era chover cartas de empenho a D. Beatriz de Noronha, e presentes ao egresso con- fessor d'aquella distincta beata.

6o Os brilhantes do brasileiro

Temos, portanto, donzella invulnerável ? Angela desmentirá a exhuberante sensibilidade de sua mãe ? Ou, namorada das visões beatificas do christianis- mo, suspira pela soledade do senobio ?

Muito longe d'isto, e muito a dentro das raias da naturesa humana estava a peregrina Angela.

IX

Amores falaes

Amava um que se habituara a contemplal-a como o espirito devoto contempla uma escuiptura da Vir- gem Maria, e com respeitoso temor imagina que os olhos da imagem fixos nos seus tem raios de luz viva e transluzem amor e misericórdia do coração divino.

Era um estudante que se habilitava para cursar a escola medico-cirurgica do Porto. Era cunhado do mercieiro que provia a casa de D. Beatriz. Era irmão da mulher que costurava os vestidos das fi- dalgas, e ensinara a bordar D. Angela. Ghamava- se, curta e plebeamente. Francisco José da Costa, e sabia que seu avô paterno tinha sido carpinteiro, e seu avô materno cosinheiro de um hiate.

Ora um homem assim «mal-nascido» alguma jóia devia trazer preciosa dos inexauriveis thesouros de Deus. Se nos elle sahir bom e honrado coração, desculparemos a baixeza de instinctos com que nos alvorece Angela no seu primeiro amor.

fe Os brilhantes do brasileiro

A innocente não se escondia de D. Beatriz. En- sina a experiência que a candura e a indiscrição an- dam muito intimas. A innocencia hombrea com a inépcia. Não pôde uma menina amar innocentemen- te senão as suas bonecas. Amores d'outra espécie, desajudados de espertesa e finura, desfecham em escândalo ou sandice.

D. Beatriz, devotíssima de S. José que carpinte- jaya, de S. Pedro que pescava, e de S. Marcos que mesinhava enfermos, e de S. Lucas que pintava, e de S. Matheus, cobrador de impostos, e de S. Cas- siano, mestre escola, e de S. Theodoto, taverneiro christã a extremos de lavar os pés aos pobres em quinta feira santa, transiu-se de horror frio quan- do teve a denuncia de que sua sobrinha amava o irmão da Joanna Costa. A denuncia vinha justifica- da com uma carta d'elle, significativa de não ser a primeira, nem talvez a decima : porque o tratamen- to dado a uma filha de Simão de Noronha e de D. Maria d'Antas era . . . um tu !

D. Beatriz poz as mãos convulsas nos olhos quan- do leu iu na primeira linha, tu a primeira syllaba da carta, uma entrada assim suja e escandalosa n'uma missiva de caderno numerado d'uma a dez pagi- nas ! E não leu mais do que aquelle tu, porque em seguida apanhou-lhe o flato as potencias da alma, e ella ficou a escabujar tão somente com a potencia de braços e pernas.

Angela accudiu; Victorina, aquella criada que o leitor conhece, estava, e nas mãos d'esta, a carta.

Veja isto, menina, veja isto ! murmurou Vic-

Os brilhantes do brasileiro 63

torina tanto lhe pedi que não lhe escrevesse...

Angela sumiu a carta no seio, e tomou nos bra- cos a tia. Chamou a, beijoua, pediu lhe perdão, de- bulhou-se em lagrimas, e deu graças a Deus quando a velha mandou fazer uma infusão de herva cidrei- ra para applacar a tempestade dos nervos.

Depois do quê, D. Beatriz obrigou a sobrinha a contar-lhe pelo miúdo a origem da sua correspon- dência com o irmão da costureira. Via-se a menina inleiada para referir o mais singelo da historia que era a origem; mas a velha insistia em perguntar:

Gomo foi o principio d'isso?

O principio ... foi . . . foi . . . eu vêl-o . . . - respondeu Angela muito apertada.

Este começar a historia d'um primeiro e talvez eterno amor tem a sublimidade simples da origem do universo, referida por Moysés: «No principio era o Verbo» ; com a differença que o principiar de Angela entendese melhor.

Então tu... objectou a tia entre irónica e severa viste-o, olhaste para elle, e mais nada. . . ficaste apaixonada ! . . . Com effeito ! . . . Eu ainda não me infirmei bem na cara d'esse sarrafaçal ; mas, pela idéa que tenho, elle tem uma figura muito re- les! Tu não sabias continuou D. Beatriz espiri- tando-se com uma pitada de vinagrinho não sa- bias que elle é irmão da Joanna, e cunhado do tendeiro ? e que o pae d*elle era sacristão da Se- nhora da Agonia, e que a mãe trabalhava com os bilros ? Sabias isto ?

Sabia. . .

Sabias ? ! quem t'o disse ?

64 Os brilhantes do brasileiro

Foi elle.

Foi elle mesmo ?! o tal Francisco ?

Sim, minha senhora.

Então tu fallavas-lhe ?

Não, minha senhora . . Escrevia-me elle.

E contou-te de quem era filho ! . . . É extraor- dinária a sinceridade 1 . . . E para que fim te contava elle essas coisas que deviam fazer-te cahir na rasao da tua indigna escolha ?

Gontava-me estas coisas para que ninguém m'as contasse antes d'elle.

Então o rapazola tinha orgulho em ser filho do sacristão ? . . . Bem sei . . . são as idéas que trouxe a liberdade. . . Deus perdoe a teu pae, que também ajudou a fazer gente os netos dos carpin- teiros e dos cosinheiros dos hiates... Oxalá que elle não pague. . . Vamos ao caso. . . E tu, apesar do Francisco da Joanna te dizer quem era, não mu- daste de idéa ?

Não, minha senhora. . .

Continuavas a querer-lhe. . .

Sim, minha tia.

E com que fim ? querias casar com elle ?

Se me deixassem, casaria.

Ora não sejas infame! bradou a tia, cer- rando os punhos, e resfolegando tão irada que o tabaco lhe espirrava em granizo das ventas arque- jantes— não sejas infame, Angela! repetiu ella, resistindo ao flato que lhe emperrava a lingua Não és minha sobrinha, não és filha de Simão de Noronha... De Maria d' Antas creio eu bem que sejas filha. . .

Os brilhantes do brasileiro 65

A ultima espécie do insulto foi vociferada com rancoroso sarcasmo: Angela não o percebeu.

Com que então, se te deixassem, casarias com o cunhado do tendeiro ! . . . repetiu a velha acen- tuando com crispações de riso aspérrimo aquelle Zé^ elidindo a primeira syllaba para engrandecer a ignominia do nome.

Angela ouvia em silencio e lagrimosa as invecti- vas da velha, cortadas de frouxos nervosos. De sú- bito, D. Beatriz, circumvagando pelo sobrado o olho direito armado da luneta, exclamou:

Que é da carta, que eu tinha aqui ? Que é da carta ?

Aqui está disse mansamente Angela, apre- sentando-lh'a.

Querias lêl-a, não é assim ? ! gritou a velha, tirando-lh'a da mão com arremeço Vae perguntar á criada que m'a trouxe se ella quereria casar com o Francisco da Joanna. . .

E, abrindo a em tremuras de raiva, pôz a luneta, e bradou :

Tu!.., Olha isto, filha de Simão de Noronha! Tu. . . O neto do cosinheiro tu á filha do decimo oitavo senhor do paço de Gondar ! . . . Não te en- vergonhas, Angela!..» Consentiste em semelhante insulto a tua mãe, que era das mais distinctas fa- milias de Portugal?*

4 O auctor deu noticia d'um manuscripto genealógico da família d'Antas/escripto por um garfo infeliz d'este illus- tre tronco. Eram quinze ou dezeseis os monarchas apparen- tados com esta familia. Veja-se o livro intitulado Coisas le- ves e pesadas.

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66 Os brilhantes do brasileiro

Como a filha de Maria d' Antas não respondesse, D. Beatriz gesticulou d'hombros e cabeça em ar de assombrada, repoz a luneta no olho fundo e mirra- do, e leu mentalmente, fazendo esgares com os queixos, ao passo que um novo tu lhe descompu- nha o apparelho nervoso. Muito é, porém, de no- tar-se que da leitura da segunda pagina em diante o rosto da velha denotava espanto sem ira, sem carrancas, sem intermittencias de suspiros e ais. Um período especialmente a impressionou de feição que voltou terceira vez a lêl-o, compassando o intendi- mento de cada phrase com um gesto aííirmativo de cabeça. A passagem dizia assim:

«Não nos illudamos, minha boa amiga. Pôde ser «que Deus aproximasse as nossas almas; pôde ser «mas, se ellas houverem de se encontrar e unir, hade «ser na presença de quem as creou, no céo. N'este «mundo, é impossivel; e, se fosse possível, a so- «ciedade te obrigaria a chorar rios de lagrimas, e «eu mesmo chegaria a sentir o tormento do remorso «por ter assassinado as alegrias do teu destino, e «destruído as modestas aspirações do meu. Desde aque comecei a adorar o que em ti ha divino, nem «uma hora entrou em minha alma o pensamento «de te ver minha esposa. Era escusado que minha «boa irmã estivesse sempre a medir a distancia que «nos separa. Bem viste que eu t'a mostrei na se- «gunda carta que te escrevi; e Deus sabe que eu «chorava quando parecia rir da humildade de meu «pae, que era um respeitável velho muito pobre, «muito resignado, e muito feliz. A grande herança «que elle me deixou foi a certesa de que ha pobres

Os brilhantes do brasileiro 67

«felizes. Conheço que a minha mocidade não vae «encaminhada pela trilha da de meu pae. Elle igno- «rava tudo, excepto os artigos da que atam as «tristesas transitórias d'esta vida aos eternos con- «tentamentos d'outra: eu estudo ha seis annos, «penso e afflijo-me em terriveis duvidas; e, se creio «n' alguma coisa santa, é porque comparo a felici- «dade de meu ignorante pae com as dolorosas in- « quietações do meu espirito. Mas a ti que importa «isto, minha adorada amiga? Que impertinentes «cartas te escrevo n'estas njites tão compridas e «veladas! E que pesar me fica se ellas te enfadam, «cuidando eu que tens também noites sem dor- «mir, e amisade bastante para acceitar as confiden- «cias do pobre solitário!...»

D. Beatriz deixou cahir o braço que sustinha o papel, desarmou o olho cansado, e perguntou :

Elle é quem ditou isto?

Isto quê, minha tia ?

Esta carta?. . . Não creio que elle saiba dizer estas coisas. . . Não pôde ser. . . Alguém lhe faz as cartas... Nada... O Francisco da Joanna, com aquella cara de bruto que tem, não ideava assim umas idéas tão discretas. Aqui anda sancadilha ar- mada á tua innocencia, Angela. Ha velhaco escon- dido n'este negocio! Sabes o que é, tola?. . . O ra- paz pensa que te prende com a confissão da sua humildade. Pouco mais ou menos aconteceu isso comigo, quando eu era da tua edade; e mais o meu pretendente era um doutor, filho do juiz de fora de Ponte. Também me veiu com estas cantigas da desegualdade dos nossos nascimentos; e eu, a fal-

68 Os brilhantes do brasileiro

lar-te verdade, ia-me deixando levar, e não sei onde chegaria a minha loucura, se teu avô do p'ra mão não me escolhe marido conveniente. Casei, e d ahi a quinze dias nem me lembrava o outro ; s6 quando o vi passados annos, muito gordo e nédio, é que me lembrei do palavriado d'elle. (D. Beatriz contava o caso espedindo uns espirros de riso gos- mento). Dizia o velhacorio que o seu ultimo dia seria aquelle em que me visse ligada a outro cora ção; e, ainda na véspera de me casar, me fez ver- ter grossas bagadas sobre o papel em que me es- crevia que o sangue lhe sahia em borbotões pela bocca. Depois quando o vi muito barrigudo, casado com outra barriguda de feitio e da casta d'elle, pe- gou-me uma vontade de rir, que ainda agora não posso ter mão, que me não doam as ilhargas ! . . .

E casquinava de modo a humorística velhinha que Angela ria também do irresistivel grutesco de sua tia, recordando tão comicamente os seus virgi- naes amores.

Pois convence-te, menina volveu a fidalga, revertendo a custo a seriedade do acto— que estás passando pelo que eu passei; mas este me quer parecer mais manhoso do que o outro. Tem mais lábia. Vem com estas coisas dos artigos da fé, que resava o pae... Podéra não! Ou elle não fosse sacristão !. . . Aposto eu que o filho não sabe o Pa- dre nosso! Se o pae era feliz na sua baixa posição, por que não vae elle para o logar do pae ? Eu disse ao tendeiro que se deixasse de o mandar estudar no Porto; que o mettesse n'um officio. E elle quem lhe deu dinheiro para seguir os estudos

Os brilhantes do brasileiro 6g

de cirurgião, ou medico, ou do que é? O cunha- do quanto tem quanto me deve. Emprestei-lhe um conto de réis a juro ha três annos, e paga me em arroz e bacalháo. Nem d'aqui a vinte annos me tem pago. Ora não ha! continuou a credora do mer- cieiro aguçando a voz em iracundo falsete se eu via minha sobrinha casada com um lapuz, que ain- da ha annos andava por ahi a jogar a pedrada no cães ! Onde foi elie apprender este palavriado ! . . . Nada. . . isto é d'algum finório que esperava ganhar alguma coisa se cahisse o raio na minha familia. Não hade cahir ! bradou ella batendo com os ossos do pulso no capacho de palha em que encruzara as pernas Não hade cahir, em quanto eu for viva ! Teu pae não te quer casar ? Eu te casarei ! Esco- lhe. Tens cinco pretendentes. Um da casa de Paço- vedro ; outro da Passagem ; outro de Aborim ; ou- tro de Aguião ; outro de Azevedo ; outro de . . . quem é o outro?

Não sei, minha tia : nem quero saber, por que não caso com nenhum.

Não casas com nenhum ? ! assobiou a velha erguendo-se duas pollegadas de salto acima do ca- pacho.

Não, minha senhora,

Não ? I . . . Vou escrever a teu pae ! Elle te obrigará !

Meu pae não quer que eu case com algum d'esses que a tia nomeou.

Não? mas eu vou dizer- lhe que ha um preten- dente mais moderno : o Francisco do sacristão. Pôde ser que elle queira este. O negocio vae arranjar-se.

70 Os brilhantes do brasileiro

Queres que lhe parte do novo arranjo ? Respon- de : isto é pedir de bocca. Teu pae deve querer que o decimo novo senhor do Paço de Gondar seja neto do sacristão da Senhora da Agonia. Tem vergo- nha ! tem vergonha ! rebramiu a velha, erguen- do-se de Ímpeto, e bradando a Victorina que lhe trouxesse mais chá de cidreira.

X

D. Beatriz injuriara cruelmente Francisco José da Costa ; mas não conseguira envenenar com a du- vida o coração de Angela.

A corajosa menina, livre da velha que adorme- cera quebrantada de insultos nervosos, fechou-se a lêr as cartas do moço, e a escrever-lhe a noticia das tribulações d^aquelle dia. Atraiçoada pela me- dianeira da correspondência, supplicou a Victorina que fizesse entregar aquella carta, promettendo-lhe ser a ultima. Condoeu-se a criada, movida também pela esperança de ver terminado o funesto namo- ro, prenuncio de maiores desgraças. Foi ella pro- priamente entregar a carta, e pedir a Francisco da Costa que sahisse de Vianna, se não queria que a menina perdesse o amor de sua tia, e, peor ainda, a protecção do pae. Ainda assim, os dizeres da carta desdiziam dos rogos da criada. Angela pe- dia-lhe amor e animo, paciência e esperança, ju-

']2 Os brilhantes do brasileiro

rando morrer antes de succumbir a um casamento violentado.

O estudante esperou alguns minutos que as la- grimas o desafogassem, e, escrevendo, pedia per- dão a Angela de sua covardia. «Sou covarde es- tcrevia elle por que fujo; covarde por que me «não atrevo a vêr o rosto da infelicidade que te «ameaça. Vou sahir de Vianna. Quando souber que «o meu nome passou do despreso ao esquecimento «de tua tia, voltarei. Se te encontrar tranquilla, não «perturbarei o teu socego. Para eu te adorar, como «até aqui, em todas as situações estarás bem, mi- «nha amiga. Ainda ligada a outro homem, eu sabe- «rei separar o anjo da mulher. O que eu não que^ «ro, nem posso, é tirar-te o nome, o prestigio, o «amparo e a honra que é visivel em quanto a «consideração publica a proclama ou finge reconhe- «cer. .

Elle não me ama! disse, entre soluços, D. Angela a Victorina Não me ama, e eu hei de ser muito desgraçada por amor delle!. . .

A criada louvava-se a si do conselho, e agradecia a Deus a honrada determinação do estudante, dan- do como terminado o lance em que o bello e rico futuro da sua menina corria perigo. Angela, toda- via, asseverava que tudo estava perdido para ella, e que lhe restava reduzir-se á extrema pobresa e desvalimento do pae, a ver se assim o homem pobre e plebeu a queria para esposa.

Este plano, se viesse a realisar-se, era original, a meu vêr^ mas não sei que fados esquerdos se atra- vessam aos projectos épicos em matéria de casa-

Os brilhantes do brasil etr^o jS

mento, se a poesia depende de uma casinha colma- da, á ourela de um regato, com seis pés de couve na horta, e por cima lua, sol, estrellas e ar á des- crição. A culpa de se malograrem estes sublimes intentos quem na tem é a sociedade, esta prosa derreada do gentio commum que assim que vêem pomba a librar-se três metros acima da lama, ape- drejam-n'a, desazam-n'a, dão com ella em terra. E desgraça ! Mulheres distinctas com amores distin- ctos é mister invental-as. E maior desgraça ainda : as heroinas, que se admiram e applaudem no ro- mance e no drama, seriam assobiadas, se tal gé- nero de pensar e viver se encarnasse em sinceras heroinas na vida real.

Angela seria capaz de descer até livelar-se com o irmão da Joanna costureira ; mas não a deixaram. Privaram-na de estremar-se do vulgar. Compelli- ram-na por maneira as circumstancias que não ha ahi maior rebaixamento onde podesse ir sopesada uma alma primorosa em finesas d*amor.

Vamos ver o que este mundo faz das mulheres que transcendem a craveira commum.

D. Beatriz, aconselhada pelo seu confessor, es- creveu ao irmão precavendo-o contra a inclinação amorosa de sua filha, sem esconder o nome e a ge- ração vilissima do inquietador de Angela. Por sua parte a fidalga declinava de si a responsabilidade d'alguma consequente ignominia de familia, admoes- tando o general a que levasse Angela para sua casa, e lhe insinuasse com o preceito sentimentos de di- gnidade e faro mais senhoril na escolha dos mari- dos. Esta linguagem methaphorica devia ser do

7^ Os brilhantes do brasileiro

frade confessor. um egresso, descassado das boas praticas de sala, daria a uma senhora faro na escolha de maridos, assim á guisa de perdigueira de dois narizes que fareja a volateria.

Simão Barbosa não se assanhou. Respondeu pla- cidamente que transferisse Angela para o conven- to, e lhe fizesse saber que a rebeldia lhe redunda- va em passar de condição de senhora á de criada. 9. Eu não sei bem de quem ella é filha. Apenas lhe co- nheci a mãe,y> Este homem, escripto isto, devia accrescentar : «Eu deveras não sou pae d'essa mu- «Iher, por que pude escrever esta resposta sem sen- «tir o minimo abalo de ódio ou de piedade. Se me «dissessem que ella tinha casado com o filho do sa- «cristão, daria ordem a um lacaio que os enchotas- «se da minha porta com um tagante.» Era o ermo, o tédio, a doença, a irreligião, a covardia em anni- quilar-se, que empedravam o coração do general.

Uma hora, em certa noite, dezesete annos an- tes.. . hora negra foi essa que lhe innoitou a vida inteira. Ullulava-lhe desde essa hora nos ouvidos um grito de garganta abafada. Nenhum rir de festa, ne- nhum gemer de infelizes, nenhuma aurora de paz vingou mais distrahil-o d'aquella noite, e do som final d'uma corda de vida que lhe estalou entre os dedos.

Quando Angela recebeu as ordens de seu pae, Francisco da Gosta ia caminho do Porto.

Mas que homem é este ? que edade tem ? que fi- gura ? que despropósito de coração é esse que se escusa com feminil pavor a fazer rosto á desgraça, raras vezes vencedora, se a paixão braveja e se es- braseja n'um formidável «quero» ?

Os brilhantes do brasileiro ji

Francisco José da Costa vae em vinte e dois an- nos. Não se recommenda por gentilesa, posto que lhe sobejem graças estimáveis. Basta lhe os olhos negros e a tristeza, a pallidez e o nunca sorrir-se. E* poeta ; mas as suas estrophes não se imprimem ; são lagrimas ; e desconhecidas, porque ninguém o vio chorar. Estuda desde os treze annos com intel- ligencia precoce. A mente de seu pae era fazel-o frade em ordem pobre ; mas o mocinho esperava que o seu estudo lhe valesse formatura gratuita em Coimbra.

Mudadas as instituições politicas, e fallecido seu pae, Francisco acceitou as sopas offerecidas por seu cunhado, mercieiro escasso de posses, e sempre in- feliz nas empresas commerciaes. José Maria dos Santos, como não tivesse filhos, promettia cortar pelas precisões domesticas para formar o cunhado na escola medico-cirurgica do Porto. Esta depen- dência mortificava o estudante, não por Índole re- belde á gratidão, senão que via sua irmã afadigada no lavor da costura para auxiliar as despesas no Porto.

Joanna era a mais doce e resignada creatura que ainda a Providencia deparou no seio de uma fami- lia mal-sorteada de bens d'este mundo. Seu marido tinha quarenta e seis annos, e ella vinte e três. Não distinguireis entre a filha extremosa e consorte des- velada. Acariciava-o e respeitava-o como a pae. Não sabemos que grau marcava a temperatura do seu amor de esposa : o certo é que José Maria, golpea- do de revezes no seu negocio, dizia que Deus o com- pensava sem medida, premiando o com o oiro do

']6 Os brilhantes do brasileiro

coração de sua mulher, em exemplo de paciência, suprema riquesa do pobre, moeda sagrada com que se negoceia o céo.

Francisco adorava sua irmã ; todavia, para estar triste, escondia-se d'ella. Joanna queria que todos agra - decessem a Deus, quando se levantavam com saúde, e se juntavam á volta da mesa do almoço. Se via triste o marido ou irmão, dizia: «Sois ingratos ao Senhor. Se um de nós adoecesse, e a doença fosse mortal, com que saudade nos lembrariamos doestes dias tão quietos, tão felizes ! Pensae na tristesa da familia onde morreu um irmão ; pensae na casa on- de ha fome e frio, e dizei-me se não é ingratidão e peccado uma tristeza causada não sei porquê

Quem primeiro revelou a Francisco o amor de Angela foi Joanna. Acabou de lhe contar a confi- dencia da fidalga, e disse :

Agora, Francisco, é necessário que vás para o Porto, embora a aula se abra em outubro. Deixa que o tempo desfaça esta creancice de D. Angela. Eu disse-lhe o que devia : mas ella respondeu-me que havia de ser tua esposa, se a tu amasses. viste innocencia assim ? Eu fiquei espantada a olhar para a menina, e de repente passou-me pelo espi- rito uma nuvem negra. Deus me livre que tu, meu querido irmão, não podesses vencer-te, se chegas- ses a imaginar possível casar com a filha do gene- ral Noronha, com a sobrinha de D. Beatriz, tão so- berba da sua fidalguia !

Francisco escutou sem assombro e sem interrom- pel-a a extensa revelação de Joanna. Passados mo- mentos de serena reflexão, disse :

Os brilhantes do brasileiro yj

Eu sabia isso...; ainda assim, dás-me uma triste novidade.

Sabial-o ? por quem ? !

Por mim. Tinha-m'o dito a minha alma. Eu pensava n'ella. . . que doidice I pensava em Angela imaginando a felicidade do homem que ella amasse. Era uma inveja que me envergonhava, por isso t'a não confessei. Até de mim a quizera eu es- conder; mas o absurdo luctava com o absurdo, e não sei quem venceu... Um dia sonhei que a viacho- rando, e acordei a chorar. Desde este momento, senti que adorava Angela. Isto foi ha três annos, lem- bras-te? Fui para o Porto, e fiquei todo o anno. Quando voltei e a vi, desejei morrer. Um dia en- trou-me no coração a certesa de que era amado. . . Por quem? perguntas tu, Joanna; e bem vejo que estás sorrindo da vaidade do teu pobre irmão!... Eu te digo como foi... estávamos na egreja matriz, nas trevas de sabbado santo. Eu sabia em que tea de altar ella tinha ajoelhado; mas entrevia-lhe es- cassamente o vulto. Ao tanger da campainha, fez- se a claridade súbita no templo, e vi os olhos d'ella cra- vados nos meus, que se abaixaram respeitosos. Sa- bes tu que delírio de piedade me assalteou? Ajoe- lhei, quando todos se levantavam e davam boas- festas. Ajoelhei no maior sombrio da nave... e chorei. Aqui tens a revelação que os olhos de An- gela ensinavam á minha alma... Que pensas tu agora de mim ? Proseguiu o moço, apoz longa pausa de reconcentração. Receias que eu appa- reça diante de Angela com o collo erguido pela vaidade de ser amado? Cuidarás que eu principiei

7<y Os brilhantes do brasileiro

a acastellar illus5es por esse céo além, e a descer d'ellas para o paradoxo d'um casamento? Mal me conheces então, Joannal se me comprehendes isto. . . Acho sempre o teu espirito aberto a certas coisas confusas que eu digo, e não sei dizer mais intelligivelmente. Olha, minha irmã^ eu não sei se o estudo invelhece o coração: figura-seme que sim. A alma não; que essa é immortal, inalterável e in- violável á destruição do tempo. Em mim conheço o coração atrophiado, e a alma viventissima. Como homem d'alma adoro Angela, illumino a á luz que radia das minhas crenças em Deus. Como homem de coração não a sacrificaria, nem me sacrificaria. Impulso que me arroje a querel-a ouvir dizer que me ama não o sinto; desejo de encontrar aquella bella imagem, no silencio do espaço em que a te- nho visto nas minhas noites de vigília, intender os murmúrios que ressoam o seu nome, vestil a das aerias roupagens que sonhou a exaltada poesia do oriente, é isso, é isso o meu amar, o meu delirar, a minha inoffensiva vertigem, que não tem nada que ver com o nascimento, nem com os haveres de Angela. Não sei quem é, não conheço, não quero conhecer a filha do general Noronha, a rica herdei- ra, a fidalga que tem no seu paço de Gondar re- tratos de avós que fundaram a monarchia portu- gueza. Quem eu conheço e adoro é uma mulher que se chama Angela, que tem no rosto uma luz celestial, e essa luz m'a representa de geração divi- na. AUi ha signal de origem mais alta. Eu vou bus- car-lh'a no céo; não a procuro na fundação da mo- narchia. Porque receias tu, então, que eu perturbe

Os brilhantes do brasileiro yg

o socego da fidalga opulenta, se eu não lhe quero nem os brasões nem o oiro? Pôde ella dar-me a alma sem lesar os seus pergaminhos nem declinar o direito de succeder nos castellos dos senhores feudaes seus avós? Pôde. Então, minha irmã, deixa ao pobre sonhador a sua innocente felicidade, e faz de conta que o defensor de Angela não é o anjo da guarda, sou eu.

XI

Sonhos e esperanças

Gomo foi que a vigilância dos dois anjos-custodios de Angela deixaram passar a primeira carta?

Denunciaremos á moral publica certa fragilidade do estudante.

O escrever-lhe não constava do programma ; nem isso era mister para homem que se abastava com o ideal encontro no silencio das noites estrelladas. E, de feito, elle não escrevia cartas á imitação d'umas que o vulgo mais selecto escreve, e suja e profana nas mãos incodeadas d'um aguadeiro.

Francisco, no calado da noite, voltava contempla- tivo e vagaroso da costa maritima, ou descia dos pinhaes cerrados d' Agra. Aquellas noites estivas da gentilissima Vianna, que se reclina á beira-mar, sob um pavilhão de verdura, e se remira no espelho do seu Lima, são noites para poetas, e poetas se fa- zem alli súbito inflammados por tantas maravilhas da naturesa, raro cumuladas n'um paraiso. De-

Os brilhantes do brasileiro 8j

baixo de céo tão inspirativo, e terra tão espontânea de murmúrios, de musicas, de perfumes, de silên- cios que se intendem e ouvem no coração, alli, onde não se faz mister a forma para adorar a idéa, é que o poeta de Angela adorava idéa e forma tam- bém, apesar dos seus incorpóreos devaneamentos.

Na volta da montanha ou das ribas do mar, con- tinuava os sonhos, á lâmpada do seu quarto, e es- crevia-os, justamente n'um caderno com frontespi- cio que dizia sonhos.

O mercieiro viu, uma vez, a costaneira com o estranho titulo; abriua, leu duas linhas, fechou-a como os philologos modernos em consciência de- viam fechar os códices cophtas, e disse á esposa:

Teu irmão está alli, está doido. Escreve de dia os sonhos que tem de noite. Pobre moço !

Joanna foi ver também. Leu e intendeu muito pela rama.

Aconteceu perguntar D. Angela á sua mestra de bordar o que fazia o irmão, quando não lia.

Escreve n'um grande livro em branco uma coisa chamada Sow/ios— respondeu Joanna.

A fidalga pediu, rogou e supplicou á costureira que Ih^os deixasse ver.

Joanna hesitou muitos dias em denunciar a sua curiosidade a Francisco; todavia, importunada por Angela, referiu ao irmão a sua imprudência.

Fraquesa congenial do homem ! Teve o rapaz uns assomos de jubilo com os rogos de Angela ! Releu os seus SonhoSy deu o manuscripto á irmã, e disse-lhe :

Pede-lhe que rasgue esses papeis depois de

os ler.

6

82 Os brilhantes do brasileiro

Angela pairava em regiões sob-postas á do seu es- piritual adorador. Adivinhou mais do que percebeu. Decorou até o que não intendia.

Vem de molde o encher-se um vácuo importante d'esta historia. A educação litteraria da filha de D. Maria d' Antas era egual á do capellão que lh'a trans- mittira. Escrevia com a orthographia do padre, quasi nunca racional. Lia os livros de sua tia, que se pre- sava de perceber a Recreação philosophica do pa- dre Theodoro d'Almeida, e relia todos os annos o Feli\ independente do mesmo congregado, o Relicá- rio de Marmontel, e outros livros, cujas passagens notáveis andavam de memoria na familia.

Que montava isto ? O amor de Deus infundiu a máxima sciencia nos apóstolos ignorantes. O amor do homem arrotea e enfrutece, a súbitas, o mais maninho intendimento de mulher. Fenómenos do amor. O divino, florejando e aromatisando marty- res e santos, ala os amados á gloria. O humano com seus relâmpagos que abrasam, e perfumes que em- briagam e asphixiam, despenha-se nos recôncavos do inferno, que n'este mundo se chama o deses- perar.

Angela sentiu destecer-se o escuro de sua igno- rância ao compasso da leitura nocturna que fazia dos Sonhos. Aquelle livro não lhe ensinava historia, nem grammatica, nem geographia, e outras coisas que não sabidas, constituem a ignorância humana. O que ella aprendia era o Verbo, não o verbo que se conjuga; mas a palavra, o som que vibra, a corda virgem, a translucidação do sentir inexpressavel, o definir da idéa confusa, a linguagem um tanto mys-

Os brilhantes do orasileiro 83

tica d'esta religião do amor que precisa revelação dos iniciados. Emíinn, o Verbo.

Ora, muito era para vêr-se a affoitesa com que a menina começou desde logo a escrever em um li- vrinho em oitavo, brochado por suas mãos, uns pensamentos curtos e singelos, com o titulo de es- peranças ! Mal emplumada ainda para librar-se a remontados lirismos, Angela apenas avoejava de ar- busto em arbusto, colhendo todas as suas imagens das flores, como a abelha a dulcidão dos seus favos.

Quando tinha escripto algumas laudas, pediu, com adorável simplicidade, a Joanna que entregasse o livrinho ao irmão, e acrescentou :

Quando elle rasgar esse, eu rasgarei o que me elle mandou. E diga-lhe que se elle sonha, eu espero,

Joanna satisfez o pedido com repugnância, e mor- mento quando viu Francisco por tanta maneira ba- nhado de consolação que lhe batiam as artérias das fontes, collando o livrinho aos beiços.

Agora é que vae começar o pariodo epistologra- phico d'estes amores.

Joanna, receiosa de ser solicitada para medianei- ra em tão arriscada correspondência, evitava o en- sejo de estar a sós com Angela, e raramente, sem necessidade extrema, ia a casa de D. Beatriz.

Angela, doida d'este desaflecto, grangeou impru- dentemente os serviços d'uma criada a quem entre- gou carta fechada para Joanna. O contheudo eram puerilidades, senão antes umas espertesas innocen- tes. Enviava ella duas folhinhas no formato das suas Esper ancas j e pedia que fossem reunidas ás ou- tras. O dizer d'este supplemento era triste e

84 Os brilhantes do brasileiro

queixoso : chamava-lhes ella aos pensamentos : Es- peranças que fenecem. Se Francisco não estivesse presente, a irmã esconderia os papelinhos, e iria pedir misericordiosamente á fidalga que se esque- cesse de seu irmão, e empregasse amor onde lhe fosse permittido esperar felicidades.

Francisco mandou esperar a criada, e escreveu a primeira carta. Depois, a segunda, a terceira, até á duodécima, que era o caderno, cujo paradeiro foi ás mãos convulsas de D. Beatriz.

Ate-se agora o fio da historia, no lance de D. Beatriz mandar que a sobrinha se preparasse para entrar no convento.

XII

A surpresa tolheu a reflexão.

Angela, pela primeira vez, deu ares de familia. Contavam-se arrojos de D. Maria d* Antas, em an- nos verdes, quando o pae lhe impunha observância das leis do decoro, em desacertos amorosos. Sahiu- se a filha de Simão de Noronha com um dos atre- vimentos não communs em quanto a sociedade as- susta, e o coração mulheril não desteme os effeitos do escândalo.

Ouvida a ordem, ao anoitecer, entrou no seu quarto onde se deteve até ás dez. O silencio da casa era completo, quando ella abriu a janella mais rente da rua, sahiu e encaminhouse a casa de Joanna.

A irmã de Francisco, que tanto o instigara a sahir para o Porto, n*aquelle dia, estava, a essa hora, chorando saudosa d'elle. Quando ouviu bater á por- ta, alvoraçou-se, cuidando que o irmão desandara, por não poder vencer se. Perguntou, conheceu a

86 Os brilhantes do brasileiro

voz tremula da fidalga, expediu um grito, e chamou o marido.

Angela, apenas entrou, disse entre risonha e es- pavorida :

Fugi!

Fugiu, santo Deus ! exclamou Joanna Vos- sa excellencia fugiu, senhora D. Angela ? ! Não me diga isso por quem é ! . .

Fugi, deveras, pois não vê, minha amiga? Olhe. . . ninguém veiu comigo. . . Se eu não fugis- se, amanhã havia de entrar no convento forçosa- mente, que assim m'o disse minha tia. . .

E agora, minha senhora? atalhou affligidis- sima a irmã de Francisco.

Agora o quê ?

Que tenciona a menina fazer?

Fico n'esta casa respondeu serenamente D. Angela, apertando nas suas a mão de Joanna.

Mui pobre casa; mas ella aqui está, e nós para servirmos a vossa excellencia disse José Maria respeitosamente.

Mas que infelicidade, minha senhora, que in- felicidade!— exclamava a tremula irmã do acadé- mico, em quanto Angela relançava em volta de si os olhos indagadores.

Não te afflijas assim, Joanna! disse tran- quillo o mercieiro maior infelicidade seria que a fidalga não tivesse pessoas que a respeitam como nós.

Seu irmão? perguntou Angela com vehe- meneia, como se a salteasse o pensamento d'elie ter sahido para longe.

Os brilhantes do brasileiro 8y

Está no Porto, minha senhora respondeu José Maria, visto que a mulher não respondia.

Foi para o Porto ? ! murmurou a filha de D. Maria d'A/itas empallidecendo e esbugalhando os seus brilhantes olhos negros.

Foi, minha senhora ; pedi-lhe eu muito que fosse tartamudeava Joanna cuidando que, sa- hindo elle d'aqui, se acabavam as inquietações de vossa excellencia e de sua tia.

Angela pendeu a face para o seio, e quedou-se largo espaço confusa, sem attender ás sensatas obser- vações de José Maria.

Que ingratidão ! murmurou ella ; e, levantan- do-se de salto, disse : Bem . . . não vim aqui fazer nada; irei para o convento; irei para onde quize- rem. Meus amigos, abram-me a porta, que eu vou outra vez para casa ; mas digam ao senhor Gosta que eu vim procural-o n'uma hora de muito soffri- mento, que não o encontrei, e que sahi desenga- nada. . .

O' minha senhora, vossa excellencia é injusta com o meu pobre irmão... exclamou Joanna, com as mãos postas, e inclinada quasi em joelhos.

N'este em meio, soaram na porta redobrados golpes. Estremeceram todos.

José Maria foi á janella, e as duas senhoras se- guiram-no.

Está a senhora D. Angela? perguntou uma voz de mulher esbofada.

E' Victorina. . . —disse a fidalga Estou, Vi- ctorina, estou aqui. . . Que é?

O' minha senhora disse a criada anciadissi-

88 Os brilhantes do brasileiro

ma Deram que vossa excellencia fugiu. Sua tia levantou-se a chamar os criados. Não tardam ahi. . . Olhe que a levam á força, e sua tia disse ao João Alho que se pilhasse ás mãos o sr. Francisco, o fizesse em postas. Volte depressa, que, se elles chegam a vir, ha desgraça de maior.

Eu vou disse atribulada Angela eu vou ; que não vão elles fazer-lhes mal, meus amigos. Adeus, adeus, que nos não tornamos a ver. .. E, abraçando Joanna, balbuciou coberta de lagri- mas : Diga a seu irmão que lhe perdoo, que fez bem em fugir, senão talvez o matassem. ..

E desceu pressurosamente as escadas.

Logo que sahiram á rua, ouviram a estropeada de criados que eram muitos, acaudilhados pelo ca- pellão, sujeito de rez.

Vamos por outro lado disse Victorina re- ceando o encontro.

Não obstou Angela Se elles me não en- contram, são capazes de arrombar a porta d*esta pobre gente. Vamos direitas a elles. Se não queres vir comigo, vae por outra banda.

Não, minha menina, heide acompanhal-a, acon- teça o que acontecer. . . disse Victorina.

A poucos passos encontraram a chusma. Angela parou. O capellão aproximou-se a reconhecel-a, e disse severamente:

D*onde vem vossa excellencia?

Vou para casa respondeu imperturbada a fi- dalga.

Mas d'onde vem? insistiu o padre.

Que lhe importa ?

Os brilhantes do brasileiro 8g

Importa, sim, senhora replicou elle, aper- tando entre os dedos o marmeleiro argolado que vergava sob a pressão d'aquellas mãos ungidas de sacerdote de Jesus; e proseguiu: Eu queria ver a cara ao bandalho ; queria mandar as orelhas d'elle de presente ao senhor general Simão de Noronha.

Angela ladeou a turba, e, trespassada de súbito medo, seguiu caminho de casa. Os criados, imitan- do o padre, seguiram-na de perto.

Entrou a senhora pela porta principal. D. Bea- triz rodeada de criadas e visinhas, estava na pri- meira sala. Angela perdeu o animo, quando avistou do patim a multidão que^ estava dentro. Voltou-se então muito desalentada para Victorina, e disse :

Quem me dera morrer n*este instante ! . . .

O capellão adiantou-sc, mandando recolher os criados. Passou avante de Angela, e disse a D. Bea- triz:

A sobrinha de vossa excellencia está alli. Que ordena ?

Abram-lhe uma porta de dentro ; que não passe diante dos meus olhos, e que fique esta noite aqui por caridade. Começou como Maria d' Antas ; pro- vavelmente acabará como ella. Tal mãe, tal filha.

E, vociferando assim, sacudia umas calmandulas de azeviche que tinha penduradas no pulso.

A gente, que a rodeava, repetiu com tom de pie- dade :

Tal mãe, tal filha ! . . .

E Angela escutara aquillo, amparando-se nos bra- ços de Victorina. E esta mulher sentia-se transida de horror, po

go

Os brilhantes do brasileiro

que ella e Simão de Noronha sabiam que mor- rer havia sido o de D. Maria d*Antas. Ella tinha sido quem conduzira a Vianna a criancinha de dois annos; e nunca o terrivel segredo lhe fora arran- cado pelas suspeitosas indagações de Angela.

Recolhida ao seu quarto, a pávida menina rom- peu em soluços abafados no seio da criada.

XIII

o capellão obteve de galope as licenças necessá- rias para a clausura de Angela.

D. Beatriz recusou ver a sobrinha, que lhe man- dou pedir licença para despedir-se.

Victorina acompanhou-a.

Quando entraram no convento, corria a no- ticia da fuga. Soror Gassilda de Noronha, irmã do general, estava prevenida por sua irmã. Recebeu glacialmente a sobrinha a quem aborrecia : era ódio reflexo de D. Maria d'Antas, causa indirecta da sua forçada reclusão. Fora o caso que Simão de Noro- nha, resolvido a concubinar-se com a prima, remo- veu o estorvo da irmã, induzindo-a ou constran- gendo-a a professar, quando não podia consagrar ao divino esposo a virgindade do coração. Sem im- pedimento da mortalha, Soror Gassilda desforrou-se, bem que não sahisse da classe, e da sua ordem, honra lhe seja; que os seus amados tinham sido

g2 Os brilhantes do brasileiro

todos frades benedictinos. Sem embargo, o ódio in- veterado a Maria d'An<:as foi semente maldita, que bracejou arvore, onde as aves infernaes fizeram ni- nho. Cumpria á desditosa filha da peccadora tra- gar-lhe os fructos.

Para dobro de desgraça, o general foi avisado da fuga. A resposta do selvagem foi simples: «não te- nho filha.» Queria dizer: essa mulher que se sus- tente com o seu trabalho, ou sustente-a a caridade publica.

E, por tanto, Angela não tinha mesada. Cassilda dizia ás suas criadas: «dêem lhe alguma coisa, se quizerem». E Victorina, que tinha cordoes e arre- cadas, vendeu o seu oiro, alegrando-se de o ver transformado no pão da sua ama.

Foi terminantemente prohibido á porteira entre- gar carta á recolhida, sem prévio exame da abba- dessa ; a mesma condição estipulada para carta ida do convento.

Três dias depois, José Maria, o mercieiro cujos haveres não chegavam a pagar o debito de um conto de réis a D. Beatriz, foi intimado para pagar ou nomear bens á penhora. Tinha a casa em que vivia, e os géneros de sua loja a pagamento de pra- so. Offereceu a casa. Penhoraram-lh'a. Os credores confluíram. Fecharam lhe a loja. E dez dias depois o coveiro fechou-lhe a sepultura. «Morro deshonra- do, e deixo-te a pedir e mais teu irmão» exclamou elle, desde que o ameaçou a congestão cerebral até que pendeu a cabeça aos braços da esposa, e ex- pirou.

Chegou a noticia do successo triste ao mosteiro.

Os brilhantes do brasileiro gS

D. Angela verteu acerbas lagrimas, e tomou como sobre-carga de angustias a responsabilidade da mor- te do mercieiro, e a desgraça da viuva e do cu- nhado.

Francisco José da Gosta recebeu a um tempo a noticia da fuga e reclusão de Angela, a da penhora e fallencia, a da doença e provável morte do cu- nhado. Partiu para Vianna. Quando chegou, Joanna assistia de joelhos ao acto de sacramentar-se o ma- rido. Francisco não ajoelhou. N'aquelle estacar im- movel diante do espectáculo lúgubre, havia o que quer que fosse peor que a condição do moribundo. Vêl-o era comprehender as palavras plangentes d'um escriptor celebrado : «A vida morta ficou se- pultada no corpo vivo». *

Fechada a sepultura de José Maria, a viuva ajoe- lhou á beira do leito do irmão.

Não morras, que eu não tenho outro amparo ! ihe clamava ella.

Qual amparo ? ! murmurou elle.

Trabalharemos, meu irmão í que sou mu- lher, e não desespero ! que dores me trespas- sam, Francisco I e vivo, e vivo, meu querido irmão ! Lembra-te da coragem da infeliz menina ! . . . Não sejas tu o mais fraco de tantos desgraçados, que. . .

que foste a causa, . . completou o moço a phrase, e rompeu em choro desfeito.

1 Padre Balthasar Telles— Chronica da Companhia de Je- sus.

g4 Os brilhantes do brasileiro

Depois, sentou-se no leito, fincou os dedos recur- vos na fronte, e disse :

Pois sim : trabalharemos.

E, volvidos poucos dias, Joanna e Francisco sa- biam para o Porto, com^quanto dinheiro possuiam : o urgente para a alimentação de oito dias.

O estudante abandonou as aulas. Quem o sus- tentaria ? Como congraçar o estudo com qualquer outro emprego ? E qual emprego lhe daria pão, ex- hauridos os cobres salvados dos últimos vestidos teitos por sua irmã?

Joanna pedio trabalho a uma modista franceza. Exigiram-lhe fiança. EUa disse a chorar que não co- nhecia ninguém. Abonaram-n*a as lagrimas. Per- mittiu a modista que a desvalida levasse as fazen- das para um sótão da RuaEscura, onde seu irmão tinha vivido como estudante de escassos recursos. Francisco vendeu todos os seus livros, depois que apartou de entre elles as Esperanças de Angela. Comprou com o producto d'elles o catre de sua ir- mã, que dormia sobre taboas. Dizia ella que para quem passava as noites trabalhando e chorando todo o leito era bom.

Os condiscipulos do académico, sabedores do in- fortúnio do primeiro annista, cotisaram-se para lhe accudir e salvar o anno : Francisco regeitou a es- mola sem orgulho, dizendo : quem não pôde ser medico, seja operário de mais humilde condição.»

Um dia oftereceram-lhe um logar de amanuense de tabellião. Acceitou muito agradecido. Escrevia á rasa, e ganhava trezentos réis diários. No sótão da Rua-Escura, depois de dois mezes do trabalho

Os brilhantes do brasileiro g5

incessante, com intermittencias de lagrimas, havia horas regulares de comer.

Eis aqui o poeta dos Sonhos, três mezes depois que. . . sonhava.

Que despertar aquelle I Se não vale mais andar um homem sempre acordado, e a patinhar na lama d'este planeta para não adormecer !. . .

Entretanto, Angela de Noronha, ou d'Antas, co- mo as tias a apellidavam para sacudirem de si o opprobrio de tal parenta, ainda lia os Sonhos do scismador do monte d'Agra e das ribas do mar. O manuscripto e cartas de Francisco andavam na cai- xa de Victorina, valendo todavia menos ás amar- guras de Angela do que o oiro da velha, o qual (di- gamol-o com vénia da poesia, e da prosa apocali- ptica) tornava-se muitíssimo mais prestimosa a cai- xa da generosa criada.

O recolhimento e conformidade da filha do ge- neral moveram á commiseração algumas religiosas, que se não pejaram de frequentar a sua desornada cella, a occultas de soror Gassilda. Se alguma frei- ra, mais desprendida de respeitos e preconceitos, se aíFoitava a arguir de cruel a invalida consolado- ra dos extinctos frades, Gassilda respondia que não acceitava como sobrinha a mulher que seu irmão não considerava filha. Esta rasão passava com fo- ros de discreta e ajuizada.

Quem mais se compadecia de Angela era uma criada da prelada. Assim que vagava ás lides ca- seiras, ia com mostras de grande respeito á cella da fidalga, e alli se esquecia a contemplai a, e a dizer coisas muito encarecidas, fascinada de sua bellesa.

g6 Os brilhantes do brasileiro

Muitas vezes oflfereceu as suas soldadas de trinta annos a Victorina, ás escondidas da senhora ; mas a criada fazia milagres de economia com o producto dos seus enfeites, auxiliado com os bordados da ama.

Rita de Barrosas que assim se chamava a cria- da da abbadessa contou muito secretamente a Victorina que sua ama tinha apanhado uma carta muito grande, vinda do Porto para a fidalga ; por signal, ajuntava Rita, que a senhora abbadessa, len- do-a a outras freiras, chorava com ellas.

Com o bom propósito de não acerbar as dores de sua ama, Victorina occultou esta confidencia. E, quando Angela, brandamente accusava o esqueci- mento de Francisco, a criada, conciliando a discri- ção com a consciência, dizia :

Deus sabe o que elle padece ! E vossa excel- lencia sabe também que á sua mão, carta que elle escreva, nunca chegará.

Mas nem Joanna. . . aquella infeliz mulher. . .

Deus sabe também se ella terá papel em que lhe escreva... Minha querida menina, tenha com- paixão d'elles, que são mais infelizes do que vossa excellencia.. Disse me a Rita de Barrosas que ouvi- ra contar misérias da pobre gente pelo Porto. Olhe, minha senhora, se vossa excellencia poder esquecer o sr. Costa, ainda pode ser que volte ás boas graças de sua famiHa, e seu paesinho, á hora da morte, lhe perdoe, e a deixe herdeira dos bens livres, como todos diziam que deixava ; mas, se el- les souberem que vossa excellencia ainda teima n'es- tes praguejados amores, então não sei o que hade ser da minha infeliz menina.

Os brilhantes do brasileiro gj

O que a divina Providencia quizer. Eu não posso esquecer-me de Joanna e de Francisco porque fui causa da desgraça d'elles. Se Deus me desse al- guma coisa, e meu pae me deixasse pouco que fos- se, eu daria tudo para os remediar. Isto não é amor, Victorina ; é dever. Quem matou o José Ma- ria foi a cruel vingança de minha tia. Fui eu que lhes não deixei gosar a santa felicidade de pobres.

XIV

Yla dolorosa

Passaram dois annos, e somos chegados ao de 1840.

Alteração notável no viver de Francisco José da Costa não ha nenhuma. E' ainda amanuense de tabellião. Joanna continua ajrabalhar para as mo- distas; mas, cançada e doente, rende lhe pouquís- simo o lavor.

O viver de Angela é mais angustiado. Victorina vendeu tudo que valia dinheiro. A ama não tem que vender, porque sua tia Beatriz negou-lhe algu- mas jóias que o pae lhe havia dado, sem impedi- mento de terem sido de D. Maria d' Antas. Os es- crúpulos de beata não iam ao extremo de repulsa- rem os braceletes e correntes da peccadora.

Victorina acceita as esmolas de Rita de Barro- sas, e as liberalidades de outras senhoras que deli- cadamente favorecem a sobrinha de Gassiida de No- ronha— freira opulenta, como depositaria e her- deira m mente d'um dom abbade de benedictinos.

Os brilhantes do brasileiro gg

rolado ao inferno por intermédio d'uma hydropesia.

Angela ignorou algum tempo a sua deplorável de- pendência. Era, comtudo, forçoso adivinhal-a, e in- ferii-a das tristesas da criada. Animou-se para en- trar ao fundo da sua miséria, e soube que estava indigente.

Vencida pela desesperação, escreveu ao pae, invo- cando a memoria de sua mãe. Péssimo expediente I Victorina quiz dissuadil-a da invocação ; mas era-lhe doloroso, tendo de explicar a inconveniência, contar a uma filha a desastrada morte de Maria d'Antas. A carta foi ; mas a resposta não veiu.

Pensava Angela em sahir do mosteiro e ir ajoe- Ihar-se diante do pae. Constou o intento. A prela- da, com boas palavras, lhe desfez o plano, dizen- do-lhe que poderia sahir com ordem de sua tia ou do sr. arcebispo de Braga.

Mas minha tia ou o sr. arcebispo não me dei- xarão morrer á necessidade ? perguntou Angela debulhada em lagrimas.

A prelada commovida respondeu :

A menina não hade morrer á necessidade. Por em quanto alguém a tem soccorrido e continuará a soccorrer. A misericórdia do Senhor é grande.

N'este tempo, aconteceu chegar ao convento a no ticia de ter apparecido em Barrosas um brasileiro muito rico, procurando novas de uma irmã que dei- xara, quando, em creança, fora para a America. Ora a irmã do brasileiro era Rita de Barrosas, criada da abbadessa. Grande alvoroço, e alegrias, e inve- jas no mosteiro!

Rita correu ao quarto de Angela a mostrar a car

joo Os brilhantes do brasileiro

ta do vigário da sua freguezia, avisando-a de que o irmão iria brevemente buscai a de liteira.

Dias depois, chegou a Vianna Hermenegildo Fia- lho \ e, dado aviso ao convento, foi procurar a irmã. Sahiram a cumprimental-o as religiosas mais autho- risadas^ e folgaram de o ver comer pasteis ensopa- dos em vinho do Porto com familiar lhaneza e pro- porções homéricas de estômago.

Ao outro dia, Rita sahiu do mosteiro, depois de ter chorado abraçada em Angela, única pessoa, di- zia ella, de quem levava saudades, e de quem nun- ca se esqueceria.

Com este successo coincidiu a morte de D. Bea- triz de Noronha. Contaram as criadas que o fan- tasma de José Maria, auxiliado por incommodos de bexiga, a matara, penetrando a d'um remorso dila- cerante. E posto que a critica e a medicina presu- mam que D. Beatriz haja succumbido a uma sisti- te, ou qualquer outra moléstia mais ou menos gre- ga, é certo que a velha para lograr o espectro do mercieiro, deixou em testamento g6oitt>ooo réis para missas por sua alma de esmola de 240. Quatro mil missas ! O diabo que se atreva a levar alma com tal recommendação, se é capaz l

Fallecida Beatriz, solicitou Angela novamente a sua sahida. A prelada consultou Soror Cassilda, a qual respondeu que não tinha que ver com a sa- hida, assim como não tivera com.a entrada.;Sem- pre discreta! Os frades d'esta senhora deviam de ter sido sujeitos atticos bastantemente nos seus ra- ciocinios. Esta madre era notável nas formas apho- rismaticas, e quasi sempre rebatia as replicas com

Os brilhantes do brasileiro loi

argumento de dois bicos. Parece que, na convivên- cia de varões doutos, a subtil religiosa medrava em espirito o que os mestres iam adelgaçando na par- te que Xavier de Maistre denomina a outra.

Rita de Barrosas, escrevendo a D. Angela, pe- dia-Ihe que fosse estar com ella uma temporada á bella quinta que seu irmão acabava de comprar ; e ajuntava que, sendo necessária licença, ella se en- carregaria de requerer e obter em Braga.

Ninguém impediu a sabida da reclusa. As freiras cooperaram quasi todas para que não se estorvasse á pobre senhora o intento de pedir perdão ao ge- neral.

Eífectivamente, Angela, apesar de despresada do pae, insistia em tentar a reconciliação apresentan- do-se-lhe com as supplicas piedosas do costume. Se ella medisse o seu amor filial pelo que devia espe- rar de Simão de Noronha, poupar-se-hia a tentati- vas vãs. Em verdade, o desapego, era reciproco. A ficção poderia espremer lagrimas dos olhos de An- gela aos pés do pae, que Ih as despresaria; se, to- davia, elle podesse sobre-posse acaricial-a, os júbi- los do perdão escassamente agitariam o coração da filha. Seriam, bem ensaiados, filha e pae de come- dia, quando os artistas se compenetram dos seus papeis.

Um pensamento, nem esquisito, nem reprehen- sivel, avassalava o animo de Angela : cogitava em ser rica para enriquecer Francisco da Costa e ir- mã. O amor entrava quasi esvahido n'este cal- culo. Figurava-se lhe que tocaria o acume da for- tuna se conseguisse pagar cem por um dos bens

102 Os brilhantes do brasileiro

que perderam os dois irmãos, quebrado o esteio do logista.

Ora, a riqueza d'onde lhe proviria a não ser do general, cuja abastança engrossara com a herança de D. Beatriz ?

Rijo era, pois, o estimulo que a fazia transpor as balisas da dignidade. E longe de nós acoimar de aviltamento a humilhação da filha ; se, no entanto, o sentir filial a não impulsa, e a cobiça, fingindo ar- rependimento, se deplora, o senhoril do acto é pou- quissimo exemplar. Tanto assim, que Angela, des- preoccupada do desejo de enriquecer-se para reme- diar alheios infortúnios, certo se deixaria vencer da fome antes de ajoelhar a um homem distincto dos outros pelo nome insignificativo de pae.

Foi, pois, caminho de Ponte do Lima, apenas sahiu do convento. Chegou de noite com Victorina ao portão do palacete. Bateu, esperou largo tempo que lhe abrissem. Annunciou-se. Mandoua entrar um antigo criado; conduziu-a a uma sala, com duas alcovas, dizendo-lhe :

Vossa excellencia tem alli uma cama n'aquella alcova, e a criada outra. Eu vou servir o chá.

E meu pae não me consente que o veja hoje ? perguntou Angela.

Seu pae, minha senhora, foi para França ha quinze dias consultar médicos, por que tem pade- cido muito n'estes últimos mezes. Eu era criado em Gondar quando vossa excellencia nasceu. A sr.* Victorina hade lembrar se do João Pedro. Sou eu, é este velho que aqui está. Ora eu fiquei com o governo d'esta casa, que para isso fui chamado

Os brilhantes do brasileiro io3

do Paço, e intendo que a minha obrigação é rece- ber a filha do meu amo, e dar parte para Paris que vossa excellencia está aqui. Se o sr. general repro- var o meu procedimento, e me despedir do seu ser- viço, já me não prega grande peça, que eu pouco heide viver. Até já, minha senhora. Se a sr.* Victo- rina quizesse ajudar- me a preparar o chá, bom se- ria, para não haver grande demora \ que eu despe- di a cosinheira assim que o patrão sahiu, e me arranjo e mais outro criado com duas brazas e um púcaro.

Era consolador o repousar e respirar que Angela experimentava n'aquella athmosphera de riqueza, O seu quarto de dormir, quando, annos antes, visi- tava o pae, era aquelle mesmo. Em quanto Victo- rina moirejava alegremente na cosinha, a senhora pegou d'um castiçal e andou percorrendo a casa. Reconheceu a ante-camara de seu pae, entrou e sen- tou se na cadeira de espaldar ante-posta á banca de escrever. Era esta banca rodeada de escaninhos onde se recadavam cartas. Angela reconheceu a le- tra da defunta Beatriz n'um sobrescripto de carta immassada com outras. Leu a primeira em que sua tia relatava os pormenores da fuga, calumniando a sobrinha a ponto de referir que os seus criados a tinham arrancado dos braços do filho do sacristão. Que seria d'aquella alma, a não se guindar do pur- gatório alçapremada por quatro mil missas a 240 réis !

Leu a segunda, em que D. Beatriz participava es- tar disposta a obrigar Angela, pela necessidade, a vestir a touca de criada, para que todos soubessem

104 Os brilhantes do brasileiro

que os parentes, se o eram, (sublinhava ella) a ti- nham abandonado como infame.

E' impossível que meu pae me receba... disse entre si amargurada.

Ia retirar-se, quando reparou n'um cofre de pra- ta que assentava sobre um bofete. Reconheceu-o, por que tinha sido de D, Beatriz. Abriu-o. Estavam dentro as jóias que seu pae lhe tinha dado, e so- bre ellas um cartão com o nome impresso do ge- neral, e por baixo, escripto do pulso d'elle, o se guinte : Estas peças em numero de de:[ pertencem a Angela^ filha de D. Maria d' Antas ^ defunta. Se eu morrer em Paris, entreguem-Was os meus testa- menteiros. Procurem na no mosteiro de S. Bento em Vianna, ou onde ella parar. Não tem mais que her- dar da casa onde viveu sua mãe.

Fechou Angela o cofre e voltou profundamente descoroçoada á sala.

Entravam os dois criados com a bandeija do chá. A filha de Maria d' Antas tomou uma chávena, e disse :

Aceito a esmola, sr. João Pedro. Dirá ao sr. general que a filha de D. Maria d* Antas aceitou esta chávena de chá, e um leito onde passar uma noite.

Uma noite ! ; volveu espantado o velho vos- sa excellencia está em sua casa, penso eu. E, se me não engana o coração, a fidalga não sahirá mais da casa de seu pae.

A'manhã.

A'manhã I pois vossa excellencia ainda ha pou- co parecia resolvida a ficar esperando que o sr. ge- neral.. .

Os brilhantes do brasileiro io5

E' verdade ; mas resolvi outro passo menos deshonroso. A'manhã iremos para Barrosas, Victo- rina. Aceitaremos o bem-fazer da mulher humilde. EUa foi pobre •, será por isso mais compadecida.

Estou ás aranhas, minha senhora ! exclamou João Pedro Faça-me o favor de mudar de idéas, e queira desculpar o meu atrevimento. A senhora tenha prudência. que veiu, fique; que seu pae, quer queira quer não, para fora de casa não a manda. . .

Manda affirmou Angela com vehemencia Diga-me uma coisa, sr. João : nunca ouviu fallar de mim ao sr. general ?

Nunca : eu não sei mentir.

Quem suppõe vossemecê que seja herdeiro do senhor general ?

Os irmãos da mulher com quem elle casou quando tinha dezeseis annos, uns homens de des- calço, que nunca vieram a esta casa. Eu desconfio, minha senhora, que seu pae está doente de cabeça, ha coisa de quatro annos. Os médicos não atinam com a cura por que lhe procuram a doença no pei- to, e elle tem-na nos miolos ; salvo tal logar E' por isso que eu desejava que elle visse aqui vossa ex- cellencia, por que, se a visse, parece-me que atre- maria outra vez.

E, se elle morresse em Paris, eu seria expulsa d'esta casa pelos homens de descalço, não é ver- dade ? perguntou Angela.

Seria o que fosse. Eu, e mais os criados to- dos, iriamos jurar que seu pae não regulava do jui- zo quando fez o testamento ; e p'ra prova basta dizer

io6 Os brilhantes do brasileiro

que elle mandou trazer da capella do Paço de Gon- dar o esqueleto da tal Josepha Salgueira com quem foi casado, e tem-no debaixo da cama n'um caixão de páo de alcanfora. Quel-o mais doido ao pobresi- nho do velho ?

Respeite-se a sua dor, embora seja um desa- tino — disse Angela. Então elle amou muito essa mulher ?

isso muito. Ella morreu de afflicção, quan- do o viu ferido em Amarante.

sabia isso. Era uma sublime alma ! Conhe- ceu-a ?

Se conheci ! Andava ella com o rebanho das ovelhas, quando eu era rapazola de quinze annos. Era muito linda, isso era I

E de minha mãe lembra-se ?

Da senhora D. Maria d^Antas?... pois não embro 1 Isso foi hontem ? Fui criado d'ella dez an- nos. . . como heide eu não me lembrar?

A Victorina diz que era muito formosa . . .

Era vossa excellencia sem tirar nem pôr. Es- tou a vêl-a. era um poucachinho mais alta ecó rada.

Lembra-se se ella era muito minha amiga ?

Parece-me que sim. . .

Por que ?

Foi ella quem a creou : não quiz ama, como todas as mães que tem de seu.

Lembra-se da morte d'ella ?

João Pedro respondeu tardamente e tartamudo :

Não me recordo bem. . . Eu estava então na quinta de Santo Amaro... é que me chegou a no-

Os brilhantes do brasileiro íoj

ticia de ter morrido a fidalga . . . E, quando voltei, o sr. Simão de Noronha estava fora de Por- tugal . .

Mas o sr. general não mandou buscar os os- sos de minha mãe ? perguntou Angela chorando no sorriso.

O velho não respondeu.

Vamos deitar, Victorina. Até amanhã, sr. João Pedro.

Muito bem passe a noite, fidalga.

Ao alvorejar da manhã, Angela, que vellara a noite ao do leito de Victorina, foi sentar-se á banca de seu pae, e escreveu uma breve carta, que sobrescriptou ao general Simão de Noronha, pedin- do-lhe que perdoasse ao seu criado a caridade de a ter recebido, e de lhe ter dado uma cama por uma noite, e lhe haver ainda esmolado dinheiro com que ella e sua criada podessem chegar a outra porta caritativa. Em seguida, chamou João Pedro ao es- criptorio de seu pae, abriu o cofre das jóias, leu-lhe a declaração do general, e ajuntou :

E' quasi certo que, por morte do sr. Simão de Noronha, me sejam entregues as jóias de minha mãe. Sobre este penhor, peço eu a vossemecê que me empreste uma moeda para eu poder ir d'aqui a uma terra chamada Barrosas. Não tenho outro pe- nhor que lhe ofFerecer.

Pois eu tenho mais que uma moeda para dar a vossa excellencia. Tenho cincoenta.

Uma me basta.

Torno a pedir-lhe que não vá, fidalga.

Heide ir forçosamente.

io8 Os brilhantes do brasileiro

Faça-se a sua vontade. Irei então alugar ca- valgaduras ; e entretanto Victorina fará o almoço.

Aqui tem esta carta: mande a a meu pae concluiu Angela sahindo com a face altiva e enchuta.

XV

Meio mllhío !

Ao cabo de onze léguas de jornada, encontraram a quinta dos Choupos, residência de Rita de Bar- rosas, que os do sitio chamavam a sr.* D. Rita bra- sileira.

Quando apearam, Hermenegildo estava no espa- çoso pateo vigiando os pedreiros que derruiam uma antiga torre de architectura manuelina para construir nos alicerces d'elia uma capoeira.

Fialho, habituado a ouvir repetidas descripções da formosa fidalga, reconheceu Angela, apertou o cóz das ceroulas, abotoou o colete amare lio, deu um geito ao collarinho desengravatado, e foi ao portão receber a hospeda, mandando chamar a irmã.

Faça favor de desculpar este desarranjo, mi- nha senhora... disse elle referindo-se ás mouras verdes acalcanhadas, onde os pés jubilavam em ple- no desafogo dos joanetes. Vossa, . . vossa excel- lencia é a sr.* D. Angela amiga da Rita ?

no Os brilhantes do brasileiro

Sim, senhor. . . Como está ella ?

Rija como um pêro. Ella ahi vem a quatro pés!... A mulher é sua amiga como eu nunca vi!...

Também eu d'ella.

Rita abraçou Angela pelos joelhos, e levantou-a, exclamando :

Pilheia I pilhei-a ! não torna a sahir d'aqui a sr.^ D. Angela, senão para a companhia dos anjos, que não são tão lindos !

E com estes outros sinceros encarecimentos en- traram nas vastas salas, onde o brasileiro tinha re- colhido as espigas do milhão a monte, de mistura com as cebolas, e as nozes e as castanhas.

Passado este lanço da casa, que havia sido con- vento de ordem rica, no angulo formado pela vasta quadra, as salas e quartos estavam decorados com luxuoso e atrapalhado máo gosto.

Aqui é a parte da casa que pertence á fidalga e á nossa Victorina disse Rita, com approvação de Hermenegildo manifestada por um sorriso.

Como tudo isto é bonito 1 exclamou sincera- mente Angela. Uma princesa ficaria contente. . .

A nossa princesa é vossa excelleacia tornou Rita.

Princesas que as leve a breca! interveio Fia- lho n'um lerdo assomo de republicanismo O que eu quero em minha casa são pessoas amigas, que não obrigam a tintiquetas» nem outras aquellas.

Se me recebessem com cerimonias accudiu a filha do general poucas horas estaria contente n*este paraiso.

Os brilhantes do brasileiro iii

Toca a saber o essencial disse o brasileiro— A senhora jantou ? São cinco horas,

Não jantamos, nem temos vontade.

Hão-de comer do que houver. Rita, carne as- sada, fiambre, salame, e peixe frito p'ra mesa. O café heide ir fazel-o eu. Aqui, quem quizer estar em minha casa, hade comer e beber, passear e dormir. Divertimentos não nos ha, a não ser alguma chu- lata dos labrostes da terra. A gente aqui passa três mezes na chácara, e depois vae em a cidade passar oinverno, que eu tenciono abrir escriptorio de consignações, e fazer dois ou três navios p'ra me entreter, que graças a Deus não preciso, sou sol- teiro, e os meus parentes, não fallando na Rita, são os dentes, diz o ditado.

Hermenegildo era loquacissimo d'este feitio, e de certo modo pittoresco na linguagem.

Angela engraçava com aquella rudesa indicativa de bom peito de bruto. O sorriso d'ella não era mordente, nem o lance d'olhos observador. A no- vidade do typo, o plebeismo do dizer, a redondesa da pessoa, a cara espirando alegria e uma saúde oleosa, tudo isto que aceraria a satyra da mulher d'um alfayate de Lisboa, produzia na fidalga bem condicionada uma inoftensiva hilaridade, com a qual o brasileiro se comprazia.

Dobaram-se dias bonançosos para Angela. Esses seriam, por ventura, os mais quietos de sua vida, se, a revezes, lhe não innublasse o espirito o in- certo destino de Joanna e seu irmão.

Rita, sem ser rogada, mandara lançar inculcas no Porto sobre descobrir se alli viviam os dois irmãos.

IJ2 Os brilhantes do brasileiro

Não colhera indicio algum. Apenas soubera que Francisco José da Gosta começara a frequentar em 1839 o primeiro anno da escola medico cirúrgica, e abandonara os estudos em meio do anno. Quanto aJoanna, vcstigio nenhum levou os indagadores ao sótão da Rua- Escura. Victorina estava sempre en- contrando com judiciosas reflexões o cuidado que dava a sua ama o destino da familia do mercieiro, afim de a ir desatando de recordações prejudiciaes a reconciliar- se com o general. N'este louvável de- signio pedia a Rita, que, se descobrisse a paragem de Joanna, se calasse com o segredo para affastar novos dissabores, e a peor das calamidades, que seria a fidalga casar com Francisco.

Credo ! exclamou a irmã de Hermenegildo, dois mezes antes cosinheira da abbadessa. Credo ! Anjo da guarda ! pois uma fidalga assim, filha d'um general, e linda como os amores, havia de casar com um pobretão ? ! Não me diga isso, sr.* Victo- rina ! Esta senhora, se quizer casar, encontra ma- rido que mede o dinheiro ás rasas, e tem quintas e palácios, e quanto cobre a rosa do sol, e que se pôde comprar com dinheiro. Vocemecê não me in- tende ?

Victorina parecia não intender.

Pois vossemecê não me intende?! tornou Rita aconchegando-se d'ella Então eu lhe conto o que se passa, e vossemecê vae ficar espantada. Faz hoje três semanas que chegou a fidalga, não faz?

E' verdade.

Pois n'este pouco tempo meu irmão ganhou

Os brilhantes do brasileiro jj3

uma tal sympathia á menina que não faz outra coi- sa senão dizer-me que ella é muito bonita, que é muito discreta, que é muito bem feita de corpo, que c isto, que é aquillo, que é aquel'outro. Não taz idéa, sr.* Victorina ! E olhe que eu caia em lhe dizer os amores que ella teve com o tal Francisco ! N'essa não cae a Rita. . . Hontem era uma hora da noite, e elle ainda estava no meu quarto a batalhar p'ra que eu lhe dissesse se a fidalga ainda viria a gostar d'elle. «O' mano, eu sei o que hade acontecer dizia-lhe eu, e elle fez-me uma pena, que vossemecê não faz idéa, quando disse muito triste : «Oxalá que eu nunca visse esta creatura ! Nunca me senti apaixo- nado cá do interior senão agora ! Estou d'esta eda- de, e é a primeira vez que pegou em mim o amor verdadeiro ! Sinto me outro homem por dentro. E, se isto não muda de rumo, eu não hei de ir longe... Tu verás que esta paixão comigo na cova». Sabe vossemecê? peguei a esbaguar lagri- mas como punhos. . .

Rita alimpou ao avental os olhos aguados, e pro- seguiu sensibilisada :

«O' meu querido Hermenegildo, disse-lhe eu, tem juizo ! Tu não te deixes apaixonar por uma pes- soa tão nobre! Verdade é que ella é pobre; mas tem pae muito rico, sem outra filha. E a de mais: ella terá vinte annos, se tiver; e tu vaes nos qua- renta e seis, por que eu sou mais velha que tu qua- tro, e faço os cincoenta pelas cerejas.» E vae elle levantou-se da cadeira, e sahiu pelo quarto fora sem dizer palavra. Eu fiquei muito afíiicta, e fui-me ter onde a elle, e comecei a dizer-lhe que não per-

114 ^5 brilhantes do brasileiro

desse a esperança, por que se tinham visto casos mais milagrosos. Não lhe digo nada, sr * Victorina; estive até á madrugada, e não puz olho, por que a final meu irmão, de se affligir, começou a doer- Ihe o fígado, e eu fui arranjar-lhe a cataplasma de linhaça. Assim que o vi descançadinho, fui resar á minha Senhora dos Remédios, e fiz-lhe uma pro- messa que não digo, se ella, das duas uma, ou var- resse da cabeça de meu irmão esta idéa, ou movesse a fidalga a casar com elle.

Victorina ouviu sem tosquenejar a commovida mulher. A impressão da confidencia não lhe era irrisória nem mesmo de grandes estranhessas. A criada, tanto ou quanto participante da luz do sé- culo XIX, estava á altura da idéa democrática e nivelladora quanto a nascimentos, resalvada a pro- funda desegualdade quanto a tfortunas». Pelo que, a união do plebeu ricasso com a fidalga pobre não se lhe afigurou absurda, e muito menos milagrosa y como dizia a consternada Rita, na sua exposição. Possuida, por tanto, d'estes sentimentos indiciati- vos de illustração innata, Victorina respondeu d'este modo consolativo :

Sr.* Dona Rita...

Não me chame Dona, Eu sou Rita de Barro- sas, já lh'o disse um cento de vezes, e mais á sua ama. Meu pae era lamanqueiro, torno a dizer-lhe. Se um vestido de seda e um relógio d'oiro dom a quem o não tem, em pouco está o dom, e não no quero.

Pois sim, seja como quizer. O que eu lhe digo é que seu irmão não deve descorçoar. Minha ama

Os brilhantes do brasileiro Ii5

tem-me fallado d'elle com ar de amisade, e gosta muito de ouvilo. Quem é amiga pôde ser o resto. Deixe estar, sr.* Dona Rita. . .

E ella a dar-lhe... atalhou a outra Rita, Rita. ..

Esquecia me. . . Deixe estar que eu heide son- dar a minha ama.. .

Por que olhe vocemecê acudiu alegremente a irmã do brasileiro eu tenho muito medo que meu irmão se apaixone por alguma d'estas senho- ritas cá de Barrosas que andam a armar-lhe a re- diosca com presentinhos de queques e ramos de flores. O doutor das Lamellas trouxe três filhas de visita, umas espinifradas com uns grandes pentes, a darem-me senhoria a mim, e por de traz a escarnecerem de meu irmão. Pois quer vocemecê saber? O doutor teve o descôco de dizer ao meu Hermenegildo que as suas filhas eram todas muito amigas d'elle, e que qualquer d'ellas se daria por feliz ficando n'esta casa! salvo seja! Eu as arre- nego! Longe o agouro! Meu irmão, que é finório alli onde o vê, respondeu que estava velhote para casar, e que era muito doente do interior. O ho- mem não tornou cá, nem as pelintronas das filhas, que hão de pôr a cara onde a sr.^ D. Angela põe os pés para serem fidalgas. E, como lhe eu ia contan- do, meu irmão é muito doente do fígado, e diz elle que não hade viver muito. Oxalá que se engane; mas a mim bacoreja me que aquella moléstia de dentro não se cura. Se elle morrer, eu sei que a mim me deixará alguma coisa para a minha de- cência: mas a riquesa quasi toda vae para o Atha-

Ii6 Os brilhantes do brasileiro

nasio do Porto, que foi sócio d'elle, e são muito amigos. Ora diga-me vocemecê: Não era melhor que esta riquesa ficasse á sr.* D. Angelasinha? Fa- zia-lhe mal ficar com este palácio, com esta quinta, e com o dinheirão que o meu Hermenegildo tem nos bancos, que pelos modos me disse o tal Atha- nasio que era metade d'um milhão! Metade d'um milhão, ó sr.^ Victorina! Vocemecê viu riqueza assim ?

Com effeito! disse a interlocutora com sin- cero assombro Metade d'um milhão! A fidalga, ainda que ficasse herdeira do pae, não tinha tanto, acho eu!

Nem sombras d'isso! meio milhão acho que n'este mundo o tem as pessoas reaes. Quer vo- cemecê saber outra ? desde que meu mano che- gou, duas vezes os governos do Porto lhe escreve- ram para elle ser barão. Vocemecê bem sabe que barão é isto de ser grande e maioral do reino, e fica-se logo fidalgo. Pois saberá que o meu irmão não quiz até agora, por que lhe pediam cinco con- tos pela fidalgaria, e elle ofFereceu metade. Esta- mos a vêr se arranjará o negocio; mas, ponto é querer a fidalga que elle seja barão, que isso manda elle logo aos governos do Porto pagar os cinco contos. Conte-lhe vocemecê tudo isto como coisa sua. E olhe que, se o casamento se chega a fazer, vocemecê também hade apanhar uma boa pechin- cha. Eu de mim dou-lhe um cordão de vinte moedas, e meu irmão é capaz de lhe comprar uma casa pVá sua velhice.

Velha estou eu, sr.* Ritinha atalhou Victori-

Os brilhantes do brasileiro iiy

na e, se Deus quizer, heide morrer na casa onde viver a minha ama.

Pois isto é um modo de fallar; que vocemecê hade ficar sempre comnosco em quanto for viva.

Pouco depois, Angela escutava a exposição de Rita fielmente reproduzida pela criada, tirante as ridiculezas que a sagaz Victorina omittiu como des- convenientes á gravidade do assumpto.

Não obstante a compostura da velha, Angela sor- ria-se e duas vezes abafou os froixos da gargalha- da. Finda a relação, a filha de D. Maria d' Antas reconcentrou-se, apanhou as fontes nas mimosas mãos e murmurou:

Qual virá a ser o meu destino ?

Esta pergunta era o epilogo de mil confusas idéas que se lhe embaralhavam na alma, umas sublimes, outras baixas até ao vilissimo lodo que originaria- mente foi costella do homem. Com a qual costella bem podem dar-nos na cara as malfadadas a quem frechamos de satyras, quando uns fumos iriados do prestigio, que lhes doira a nossa poesia, se rarefa- zem.

Qual virá a ser o meu destino ? Que interrogação !

E' a mulher sem parentes que a faz. E' a mulher que conheceu a pobresa. E o desamparo. E o despreso dos seus.

E as injurias calumniosas, sem que Deus ou a so- ciedade a vingassem e a illibassem.

E' a mulher que não aurora de melhor dia \

Ii8 Os brilhantes do brasileiro

Que um mez antes quasi esmolara o custo da passagem d'um albergue de caridade para outro ;

Que se despenhara das canduras d*um primeiro amor á mais rasa, á mais estranha e imprevista mi- séria.

Qual virá a ser o meu destino ?

Ha n'este interrogar-se uma abdicação, um alie- nar direitos de dispor do que quer que seja aspira- ções a felicidade.

Por que é tudo escuridade e amargara em sua alma. Amargura, se se recorda \ escuridade, se olha adiante.

A riquesa, que se lhe ofiferece, não é a que ella desejava. O meio milhão d'este homem não servirá a resgatar da pobresa a familia do homem assassi- nado por sua tia. Más Victorina. . .

(O' costella do homem ! ó oiro que a baba da ser- pente converteu em lamal. . .)

Mas Victorina repisará n^aquellas palavras de Ri- ta : Ora diga-me vocemecê : Não era melhor que esta riquesa ficasse d sr." D. Angelasinha ?

E Angela de Noronha, interrogando o silencio da sua alma, poz os olhos lagrimosos em Victorina e disse :

Se tu pedisses a Deus que me levasse doeste mundo!. . .

Porque, minha senhora ? porque quer morrer ?

Porque me julgam tão sem amparo que me aconselham o casar-me com este homem ... E, na verdade, eu sei que sou muito, muito infeliz ! Não tenho nada, não sei trabalhar, não tenho outras ami- gas, senão tu, e esta mulher a quem devo benefi-

Os brilhantes do brasileiro iig

cios que me collocaram inferior a ella. . . Quem sou eu, afinal ? Uma grande senhora que não pôde guar- dar a independência de sua alma, á custa dos mais rudes trabalhos. . . Até hoje, a minha puresa foi tão somente manchada pela calumnia de minhas tias; mas amanhã em que posição me collocará a Provi- dencia ? Toda a gente terá direito de me considerar ou perdida, ou no trance de me perder. .. E, de- pois, Victorina ? Quando sahirmos d'aqui, onde ire- mos ? Se, ao menos, meu pae me mandasse entre- gar já as jóias de minha mãe... ainda teríamos com que viver, e eu iria trabalhando nos borda- dos . . .

Os bordados. . . murmurou Victorina.

Sim. . .

Os bordados, minha senhora... tornou a criada sorrindo amargamente Vossa excellencia sabe quanto eu recebia de cada bordado em que a menina gastava as horas todas do dia e algumas da noite ? Era conforme Uns regulavam a tostão por dia e noite. Outros a seis vinténs. E mais diziam que era por favor, por que tinham melhor e mais barato. . .

Saltaram-lhe as lagrimas dos olhos.

O' minha mãe, se tu me visses chorar!. . . exclamou a filha do general inclinando a face para o seio arquejante.

XVI

Por causa do flgado

Escreveu Angela a João Pedro perguntando-lhe se o pae respondera. Teve resposta negativa. Que o fidalgo tivesse peorado suppunha o escudeiro por ter lido n'uma gazeta de Lisboa que o bravo gene- ral Noronha estava em Paris sofírendo, além de antigos achaques, os graves incommodos de uma ophtalmia, que o ameaçava de cegueira.

Não era a herança que a alvoroçava. Gonten tal-a-hia a entrega das jóias, como um soccorro im- mediato, para poder, agradecida a hospitalidade do brasileiro, procurar sua vida n'outras condições. Mas até esta esperança se fechara á pobre senhora !

Na correntesa d'estes successos, aconteceu adoe- cer de hepatite Hermenegildo Fialho. Bem pôde ser que o amor contribuísse a sobreexcitar a inflamma- ção chronica do fígado, entranha que se ressente das perturbações moraes por esquisita sympathia. Alguma rasão, pois, tinha a mortificada sr.* Rita

Os brilhantes do brasileiro 121

para attribuir a doença do irmão a pura paixão d'alma.

A enfermidade aggravou se. Vieram as intermit- tentes, a intumecencia da viscera, o fastio e a rápi- da magresa, os suores nocturnos e o delirio, emfim o estado em que a medicina capitula assustadora- m*ente a doença.

Nos delirios, o brasileiro rosnava o nome de An- gela, caso que fazia sempre repuchar chafarizes de lagrimas dos olhos da irmã, ao passo que o rosto de Angela se entristecia compassivamente.

Uma vez que o doente desagradou notavelmente ao medico, Rita lançou-se de joelhos aos pés da hos- peda, e clamou:

Meu anjinho, faça um voto a Nossa Senhora dos Remédios que hade casar com meu irmão, se elle melhorar ! Faça, pelas chagas de Ghristo, e por alma de sua mãesinhal

Levante-se, sr.* Rita t disse Angela, incli- nando-se para erguel-a nos braços.

Não me levanto, sem vossa excellencia pro- metter a Nossa Senhora que hade casar com o meu pobre Hermenegildo que morre de paixão pela se- nhora.

Jesus ! balbuciou a attribulada menina.

Então ? instou a supplicante velha Então, minha senhora ! . . .

Pois a sr.* Rita cuida que a minha promessa salva seu irmão?! argumentou Angela.

Cuido, cuido, por que Nossa Senhora hade ou- vir a promessa d'um anjo 1

Pois... sim gaguejou a violentada senhora.

122 Os brilhantes do brasileiro

Casa com elle? acudiu Rita, radiosa de es- perança.

Sim. . . caso. . .

Levantou-se Rita com exultaçao de mentecapta, entrou no quarto do enfermo, e chamou-o tão es- trondosa e vertiginosamente que o homem abriu os olhos, as ventas, e a bocca, tudo a um tempo e me- donhamente.

Olha que a sr.* D. Angela fez a Nossa Senho- ra dos Remédios a promessa de casar comtigo, se tu melhorasses.

Hum,,. fez Hermenegildo, e quedou-se es- tático a olhar para a jubilosa cara de Rita, e ella a repetir-lhe até quarta vez a noticia.

E, ao mesmo tempo, Angela soluçava e estale- java com os dentes vibrados por um frio nervoso. E Victorina a fim de consolal-a e tirar-lhe a carga da promessa, dizia-lhe :

Não se afflija, menina, que o homem não es- capa ! Quando vossa excellcncia casar com elle, dou licença que me enforquem.

Voltou o medico segunda vez n'aquelle dia, e achou o homem menos febril, e a lingua mais hú- mida. No seguinte, a febre foi menor; e o suor da noite quasi insensível. Ao outro dia, como o doente desemperrasse a lingua para dizer que a dor o deixava respirar livremente, o medico, voltado para Rita e Angela, declarou, com vaidade de ter res- taurado um moribundo, que o doente estava livre de perigo, e ia entrar em convalescença.

E, dentro em pouco, entrou a bolear-se, a arre- dondar-se, a pelle a encher, as orelhas a enconchar-

Os brilhantes do brasileiro ia3

se com um escarlate de coralinas, o nariz a vestir- se de tegumentos, o todo emíim do carão a luzir e a estilar sorosidades de sangue novo que parecia uma espumadeira de tomates.

E Angela via tudo aquillo com o falso contenta- mento das viuvas do Malabar que assistem á dispo- sição das achas para a fogueira que hade assal-as.

Hermenegildo esperava que a sua hospeda lhe desse azo a fallar-se em casamento ; ella, porém, esquivava os lanços preparados pouco engenhosa- mente pela irmã do noivo.

Era fatal e indeclinável o cálix í

Uma vez, o brasileiro, esporeado pela mana, af- foitou-se a perguntar a D. Angela se queria ser sua esposa.

Sim, senhor balbuciou ella, rápida e laconi- camente, como o suicida que fecha os olhos, e se despenha, antes que a reflexão lhe pinte os horro- res da queda.

Hermenegildo emparveceu mais que o commum nos sujeitos da sua natureza. O sorriso que lhe en- treabriu as queixadas parecia escancarar os alça- pões d*aquelle peito carecido de ar, como se o ju- bilo o afogasse.

A careta era feia ; mas amorosíssima. Havia alli mescla de satyro cupidinoso e de amante soez. An- gela não viu a fachada do coração que senhoreava. Se n'aquelle instante o encarasse, bem pôde ser que a Senhora dos Remédios fosse lograda.

Dado o dilacerante sim, a ideal amante de Fran- cisco Costa, a maviosa scismadora das Esperanças^ entrou no seu quarto, e não pôde chorar. Sentia um

124 ^s brilhantes do brasileiro

peso de estupidez, uma sensação na cabeça, como um capacete de lama, permitta-se a figura.

Victorina foi eminentíssima em insartar argumen tos sobre argumentos convincentes de que Angela havia de ser feliz, embora não amasse o marido, e simplesmente o estimasse como homem que a le- vantava com sua riquesa á independência, á consi- deração publica, e ao futuro goso de se ver viuva; «por que elle, dizia a criada, d'outro ataque vae-se embora».

Numa tragedia d'esta ordem, como se vê, o có- mico está sempre negaceando á gente por detraz d'aquelle Fialho, o qual, apesar dos chacoteadores, tinha ares de bom homem, e talvez desse de si um marido regular, se se ajoujasse a uma fêmea da sua espécie.

Por cortar demoras, não nos deteremos a des- crever a bulha que a felicidade de Rita e do irmão fazia na casa. Fialho sahiu logo para o Porto a pro- ver-se dos aprestos para o noivado, e então com- prou os 6:5ooíCí)Ooo réis de brilhantes, como consta do primeiro capitulo d'esta chronica social, e cortes de seda, e peças de veludo, e quanto lhe depara- ram as casas francezas, e modistas escripturadas que levou comsigo para a quinta.

No meio doesta azáfama, Angela estava como in- sensível, e na cama, onde uma febre lenta a pros- trara.

Victorina, exagerando o susto, era de parecer ►que se desligasse a ama da sua palavra, e não ca- sasse.

Que me importa a mim?! dizia Angela

Os brilhantes do brasileiro J25

D'um ou d'outro modo heide acabar breve. O co- ração já não o sinto. Não tenho saudades de nada. Morro, sem faltar á minha palavra. Se Deus me não der melhor vida depois, é que não ha céo.

Angela enganou-se. Ao fim de quinze dias estava cansada de pensar na sua desgraça, e indiíFerente, senão identificada. Estas refundições são vulgaris- simas. E' minha opinião que as lagrimas deslaçam e rompem os liames de certas crenças e esperan- ças ; porém, como á vida se fazem mister outros, opera-se uma renovação de vinculos que nos atam a outras preoccupações. Nas Índoles feminis são por via de regra taes renovações mais têmporas, em rasão de operarem n'ellas as lagrimas em maior copia. E, se me não engano, ha ahi coração de se- nhora que pôde frutificar colheitas variadas cada anno, duas, três e mais, consoante a rega de lagri- mas. E uma aleivosia que o mundo ignaro lhes as- saca de versatilidade não é mais que illusões que se afogam e renovos que desabrocham assim que as lagrimas se estancam.

Postas estas coisas como explicação de outras relativas á filha do general Noronha, cumpre saber que no dia 4 de novembro de 1841, pelas 9 horas da manhã, contrahiram o sacramento do matrimo- nio D. Angela de Noronha Barbosa com Hermene- gildo Fialho.

Entre as testemunhas d'este consorcio, invejado das damas e cavalheiros do concelho, estava aquelle João Pedro, mordomo do general.

E* que elle tinha chegado na véspera a entregar a D. Angela o cofre das jóias de D. Maria d' Antas,

120 Os brilhantes do brasileiro

e a mostrar uma carta, escripta desde Paris, em que o general dizia: uSe souberes onde pára a se- (ífthora que pernoitou n^essa casa, entrega-lhe um ca- cifro de objectos de oiro e pedras que está no meu t quarto, e cobra recibo, ^

João Pedro, informado da riquesa do noivo, an- tes de o vêr, felicitou a filha de seu patrão; mas, depois que o viu, coçou as farripas da calva, e dis- se á puridade, a Victorina:

Oh ! com dez milheiros de diabos ! . . .

Então que é? perguntou a criada.

E' que, se a fidalga não fôr santa, aquelle ho- mem hade ser. . .

E callou-se, porque adivinhou que eu tinha de contar fidelissimamente estas passagens.

XVII

Historia dos brilhantes

Em janeiro de 1842, Hermenegildo Fialho passou a residir no Porto em casa sua, mobilada pompo- samente, na rua do Bispo.

Diga-se desde já, para anteparar estranhesas fu~ turas, que o brasileiro andava scismatico e a modo de melancólico.

Não se descosia com ninguém, porque a irmã, sua confidente, ficara a governar a quinta dos Chou- pos. E*, todavia, fácil entrar nas cavernas d'aquelle peito, sem embargo do enxundioso arnez.

Fialho conjectura que Angela o aborrece. Nem um sorriso, nem uma caricia, nem uma palavra que não seja resposta concisa e sêcca. Elle não ousa ar- guil-a; mas, se mansamente se queixa, Angela res- ponde com um franzir de testa e um silencio té- trico.

Principia o arrependimento a desbastar-lhe as opulências musculares, e o figado a dar rebates de

128 Os brilhantes do brasileiro

desordem intestinal. Recorre aos emolientes; mas a esposa, como elle revelou ao compadre Athana- sio, manda-lhe cingir as papas por um gallego.

Angela faz isto innocentemente. E, talvez, que^ matrimoniada com um archanjo, não pozesse mãos em linhaça, se os archanjos podessem soffrer do fí- gado.

Debaixo das telhas do próximo passam agonias ridículas que não viu o dom Cleófas de Le Sage.

Victorina está sempre a procurar na cara do amo signaes de morte. Se o mais amarello, ou mais vermelho, com o nariz menos succoso, e os olhos mais incovados, diz logo a Angela : « O homem não tarda!» A phrase era illipticamente económica; o não tardar era ir depressa para a sepultura.

Resolvido a viver e distrahir-se, Fialho abriu es- criptorio na Reboleira e comprou navios. E distra- hia-se. A bailes e theatros não ia, nem Angela os desejava. Gomo é notório, em substituição á mis- sa, comprou oratório para uso da esposa. Herme- negildo, em matéria de religião, era bestial.

Decorreram seis mezes. Angela foi mudando sa- lutarmente para ambos. Estava afTeita. Conversava com melhor sombra ; mas acariciava um gato para sentir o praser nativo de suas aveludadas mãos. Her- menegildo olhava para o lombo lusidio do bicho, e espumava umas cóleras que engolia azedas como vomito de digestão derrancada.

Na primavera d'este anno, o brasileiro foi á terra, e só, para queixar-se á irmã n'estes termos:

Ella não me tem casta de amor nenhum. Pas- sam-se dias que não palavra, e noites que ador-

Os brilhantes do brasileiro i2g

mece a resar e fica. Este casamento foi o diabo í Cabeçada assim nunca a deu homem de juizo ! E' bonita, mas de que serve? E' como quem tem um painel em casa. Se é fidalga, isso a mim que me faz? Fidalga é a burra. Emfim, desde que me des- enganei que não ha volta a dar-lhe, lancei os meus cálculos, e sei o que heide fazer.. . Nada de me apaixonar. Mulheres que me queiram não faltam. Eu me arranjarei como fazem todos.

A irmã deu-lhe bons conselhos, e recommendou- Ihe paciência e juizo.

Lembra-te, dizia ella, que a pobre menina fez uma promessa para te salvar da morte, e casou comtigo sem amor.

Então não casasse.

Eu disse-t'o, e tu disseste que o amor vinha depois. Então espera que elle venha, meu filho.

A'gora vem ! olha que ella está-se a fazer velha ; e de aborrecida nem parece a mesma. Está mais amagraJa, e branca como a cal da parede.

Coitadinha ! atalhou Rita condoída.

Coitadinho de mim !

Mas tu estás bem gordo, Hermenegildo I

Bem haja eu! podéra não ! Vou fazendo pela vida.

Mas não a mortifiques, que ella é um anjo.

Não me cantes lerias, Rita! Aquella mulher tem no interior outra paixão antiga. E queira Deus ou o diabo que ella me não pregue alguma, que eu não sou para graças. A' primeira que me fizer, ponho-me ao largo.

Jesus! tu estás ahi a asnear, homem de Deus! pois uma senhora tão boa, tão resadeira...

9

i3o Os brilhantes do brasileiro

Ora contos, minha amiga; as que resam muito sabem por que o fazem. Se ellas não teem pec- cados, p'ra que resam ? Responde lá, se és capaz !

Tu és hereje, Hermenegildo!

Qual hereje! sou phelosephoy é o que eu sou. E era.

Em quanto elle philosophava em linguagem cor- rentia mérito de que não se gabam muitos de seus confrades lances extraordinários passavam na vida de Angela.

Estava ella á janella, em um domingo de manhã, quando viu subir da Praça Nova uma mulher de mantilha, que a fez estremecer vista de longe. Des- ceu de corrida ao primeiro andar e abriu a janella a tempo que a mulher passava defronte. Duvidou, acreditou, hesitou, e emfim disse em voz alta á criada que a seguira assustada:

Será Joanna?!

A mulher, que passava, voltou o rosto rapida- mente, deu d'olhos em Angela e estacou.

E' ella, é ella!' confirmou Victorina.

Suba, sr.* Joanna! disse a senhora agitada- mente, correndo a recebel-a no paieo.

O' minha senhora! exclamou Joanna O* meu Deus! pois eu encontro aqui a sr.* D. Angela í ainda torno a ver esta senhora !

Abraçaram-se enternecidas e subiram sem se de- senlaçarem.

Gomo ella está acabada I—disse Victorina ben- zendo-se.

Estou muito velha e muito doente. . . e vossa excellencia ainda tão formosa, mas mais descoradi-

Os brilhantes do brasileiro jSi

nha ! . » . Eu vim de Vianna ha três mezes, pergun- tei por vossa excellencia, e ninguém me soube di- zer onde parava. E estava aqui! e eu sem o sa- ber ! . . .

Então tem tido muitas amarguras na sua vida ? perguntou Angela com os olhos afogados em la- grimas muito fitos n'ella.

Oh ! se tenho, minha senhora I Ha perto de quatro annos a vivermos d'um trabalho pouco ren- doso. . .

A viverem. . . atalhou Angela então seu ir- mão. . .

Meu irmão está comigo, minha senhora. Nun- ca nos desamparamos um ao outro, e Deus tem sido misericordioso comnosco deixando-nos viver juntos...

Aquella morte de seu marido... balbuciou a sobrinha de D. Beatriz.

Não me falle n'isso, minha senhora, que ainda se me parte o coração, quando me lembro de o ver cheio de vida e luctando com a desgraça para po- der pagar á sr.* D. Beatriz, sem vender a casa ; e, em poucos dias,- matou-o a paixão de se ver des- honrado e . . .

Sei tudo, sei tudo... murmurou Angela aper- tando-lhe as mãos Perdoe me, sim? continuou ella com a voz tremente Perdoe a quem foi a causa de morrer seu marido. . .

A causa, minha senhora, não foi vossa excel- lencia; foi a estrella que nos perseguia. Nin- guém podia prever o que aconteceu. Tão culpada foi a senhora, como eu, como o meu pobre Fran-

j32 Os brilhantes do brasileiro

cisco. Por causa d'elle também vossa excellcncia padeceu muito, segundo ouvi dizer em Vianna a uma criada que foi do convento. Affirmaram-me que vossa excellencia chegara a sentir a precisão de trabalhar. . . Quem diria!. . .

E que tem isso? Peor seria se o meu trabalho me não chegasse para o pão de cada dia. . . refle- ctiu Angela.

Quando contei isto a meu irmão, parecia que a luz dos olhos se lhe apagava nas lagrimas. . .

As duas senhoras referiram mutuamente a sua historia, desde o momento em que se apartaram.

A leitora sensivel antes quer ignorar misérias que alli se revelaram as duas amigas ; que farte triste- sas são sabidão pela piedade e sympathia.

Tinham decorrido três horas de pratica entre sor- risos e lagrimas, quando Joanna se levantou e disse :

Oeixe-me vossa excellencia ir fazer o jantar de meu irmão.

Espere . . . atalhou Angela, e foi ao seu quarto. Parou á entrada, e exclamou, como se houvesse

medo de entrar :

Ah!

E, chamando Victorina, perguntou com afflicção :

As jóias de minha mãe ficaram na quinta, não ficaram ?

Sim, minha senhora. Vossa excellencia disse- me que as fechasse na commoda, por que eram coi- sas antigas que se não usavam ; até seu marido, n*essa occasião, lembrou que o melhor era trocal-as por enfeites modernos.

Os brilhantes do brasileiro i33

E' verdade f . . . recordou Angela com muita amargura Gomo hade ser isto ? Eu queria dal-as a Joanna.

Dal-as?... e se seu marido perguntasse por ellas ?

Respondia que as dei.

O tom severo d'esta resposta forçou a criada a silencio.

Angela voltou á sala, apertou entre as suas as mãos da viuva, e disse-lhe com vehemente solem- nidade :

A minha amiga vae jurar pela memoria de seu marido que não dirá a seu irmão que me viu.

Juro, minha senhora.

E não lh'o dirá por que o vermo-nos compli- caria o infortúnio de ambos.

Não era preciso lembrar-m'o vosso excellencia.

E promette-me aqui vir amanhã á mesma hora ?

Sim, minha senhora.

Então vá, e creia que tem aqui ao da mi- nha alma de irmã a alma de seu marido. Eu heide melhorar a sua sorte, se a senhora nunca esquecer o seu juramento.

Não esquecerei, sr.* D. Angela.

Sahiu Joanna ; e a esposa do brasileiro abriu um estojo de velludo, que continha o adresse que o marido lhe dera. Examinou as peças, procurando uma, cujas pedras se desencravassem com menos custo. Escolheu a pulseira, e d'ella com os bicos de thesoura extrahiu um brilhante. Chamou Victorina, e disse-lhe :

Vae vender esta pedra a um ourives.

i34 Os brilhantes do brasileiro

Vender?!... objectou com espanto a criada.

Sim, vender.

Teremos novas desgraças, minha senhora?

Não. Temos desgraças antigas a remediar. Faz ó que te mando, Victorina, senão, vou eu.

A criada sentiu-se impellida por irresistível força. Angela, quando mandava com império, fazia lem brar á velha a soberba e inflexivel Maria d' Antas.

Sahiu Victorina, examinando, na rua das Flores, as ourivesarias mais abastecidas. Entrou na loja dos srs. Mourões, e vendeu o brilhante por 25oc5f)ooo réis.

Voltou a tremer, medindo a gravidade do delicto pela abundância de oiro e prata que lhe pesava de certo modo na consciência. Entregou o dinheiro a sua ama, e abalançou-se a fazer considerações timo- ratas sobre o alcance de tal passo.

D. Angela rebateu os sustos de Victorina com o seu ar de infinita alegria raio de luz que muitos annos havia não tinha tocado os luctos d*aquella alma.

As minhas jóias elle me disse que valeriam quatro ou cinco contos ajuntou Angela para aliviar dos escrúpulos a menticulosa criada Quando elle (elle era o marido) desse que eu dispozera d'estes brilhantes, tem os de minha mãe para se resarcir.

Mas o peior é se elle pergunta a quem vossa excellencia deu o dinheiro... contraviou a sisuda velha.

Se pergunta, responderei «dei-o». Verás que sou pontual no que prometto, se chegar essa occa- sião.

Os brilhantes do brasileiro i35

Deus nos accuda por sua sagrada paixão e morte ! . . . esconjurou Victorina, e accomodou-se para não agorentar a exultação da ama.

No dia seguinte, á hora aprasada, chegou a irmã de Francisco Costa. Foi recíebida com grande con- tentamento.

A minha amiga disse a filha do general com a mesma gravidade do dia anterior continua a jurar pela memoria de seu marido que fará quanto eu lhe disser, e não revelará a seu irmão palavra do que se aqui passar. Jura ?

Farei o que vossa excellencia disser, sendo coisa que não possa acarretar-lhe desgostos.

Não me ponha condições ; se m'as põem, tor- na-me mais desgraçada do que eu era disse An- gela com transporte, perdendo por instantes a ale- gria que lhe illuminava o rosto.

Farei o que vossa excellencia mandar.

Bem. Escute-me. Quero que a senhora mude de situação, de casa, e de tudo. Quero que seu ir- mão continue os seus estudos. Quero restituir-lhe o que perdeu com a morte de seu marido . . .

O' minha senhora, vossa excellencia. . .

Deixe-me fallar. Quero que seu irmão nem em sonhos possa conjecturar donde a minha amiga re- cebe os recursos. Ajudeme a pensar; como hade ser isto ? Como poderemos nós enganal-o ?

Não sei, minha senhora . . . Meu irmão sabe que eu nada tenho, e que os nossos parentes todos são pobres. . .

Eu pensei toda a noite n'isto. Inventei uma mentira innocente. Veja se tem geito... Parece-me

i36 Os brilhantes do brasileiro

que sim... A minha querida amiga finja que uma pessoa de Vianna, que não se declara, ficou deven- do em consciência a seu marido certa quantia de dinheiro, e quer restituil-a por que tem remorsos de ter contribuido para a quebra e morte do sr. José Maria. Comprehende ?

Sim, minha senhora ; mas . . .

Espere. Ouça o resto. Essa pessoa diz na carta que irá remettendo, de tempo a tempo, a quantia que deve, e declara que não é pequena a restitui- ção, para que seu irmão possa sem receio de ser interrompido por falta de meios, continuar o seu curso. Que lhe parece ?

Não me parece mal*, mas se meu irmão quer entrar em averiguações. . .

Na carta hade dizer a pessoa que das averi- guações, se se fizerem, resulta a suspensão dos paga- mentos porque o restituidor não se esconde de Deus, mas quer esconder-se do mundo. Pensei em tudo.

Mas quem hade escrever a carta ? argumen- tou Joanna.

Olhem a grande diííiculdade ! Escrevo-a eu.

Mas elle conhece a letra de vossa excellen- lencia. . .

Que novidade! Deixe-me acabar... escrevo-a eu, e Victorina chama um rapaz da escola, e paga- Ihe para que a copie ; e, depois, a carta finge-se tra- zida por um sujeito desconhecido que a procura em sua casa em quanto seu irmão está no escriptorio, e lh*a entrega com este dinheiro.

E, dizendo, entregava a Joanna os 25oj5(ooo réis cm uma saquinha.

Os brilhantes do brasileiro iSy

A irmã de Francisco hesitava em receber. An- gela lançou-lhe a sacca ao regaço, e disse :

Com esses modos não me deixa gosar todo o contentamento com que Deus me está compensan- do o martyrio de quatro annos ! Minha amiga, dei- xe-me inteiro este goso, por quem é, por alma de seu marido lhe rogo !

Lavada em lagrimas, Joanna inclinou-se a que- rer beijar os pés da fidalga, que a estreitou com transporte ao coração.

que são horas disse Angela guarde o dinheiro onde seu mano o não veja. A'manhã torne á mesma hora, que heide ter a carta. Fico muito alegre. Vou agradecer a Deus este raio de sol. Não me acha hoje mais bonita ? mais nova ? Olhe o que faz a felicidade ! . . . Ha quatro annos á espera d'esta hora I . . . E' hoje a primeira vez que vejo seu marido a sorrir para mim do outro mun- do!.. . Não chore, que elle não quer. Vá, mi- nha amiga. . .

Joanna sahiuenchugando as lagrimas, e entrou no primeiro templo que encontrou aberto a pedir ao Se- nhor que abençoasse a caridade da virtuosa Angela.

Sahiu-lhe bem logrado o plano á consolada se- nhora.

Francisco José da Costa leu a carta como assom- brado d'um caso de restituição em tempos de tanta philosophia alumiadora dos espiritos quando para castigo de ladrões não havia inferno, nem para gloria de arrependidos céo. Contou o dinheiro, e disse á irmã :

j38 Os brilhantes do brasileiro

Agora, minha pobre Joanna, cessa de trabalhar. Vae vivendo do que receberes, que eu para mim me arranjarei com os três tostões da escriva- ninha.

Isso acabou, Francisco. Deixas-te de ser ama- nuense de tabellião.

Estás doida com a tua felicidade dos 25oâ^ooo réis ! . . .

Olha, Francisco, tornou ella se este di- nheiro e o que vier te não servir, para mim é inútil.

Ou tu continuas os teus estudos, ou eu continuo a minha costura, esperando que um dia te resolvas a empregar o dinheiro. Escolhe. Jurote que não le- vantarei cinco réis d'este, e do que vier, sem que tu estejas formado. O que peço é que nie alu- gues melhor casa e que a mobiles com mais Hm- pesa. Peço-t'o muito por ti, e pouquíssimo por mim. Estamos em março ; se consegues ainda este an- no continuar a aula que interrompeste em fevereiro ha quatro annos. Formate, meu querido irmão, e serás depois o meu amparo. Então descançarei con- fiada somente aos teus cuidados.

A lei não permittia abrir matricula extemporanea- mente. Todavia, Francisco passou o restante do anno recordando matérias esquecidas desde as mais ru- dimentares das aulas preparatórias. Melhorou de casa, comprou livros, sentiu-se renascer, abendi- çoou muitas vezes a Providencia que suggerira no coração de quem quer que fosse a virtude de re- por um roubo virtude difflcilima, digo eu, que en- cheria o céo de santos, se os ladrões, uma bella ma-

Os brilhantes do brasileiro i3g

nhá, se combinassem para expulsar de os bem- aventurados por virtudes fáceis. Roubar e restituir depois, dizia elle, inculca uma transformação mo- ral de tal magnitude que não se faz mister provar com outro phenomeno a divindade da religião que operou tal maravilha.

No primeiro capitulo d'este livro vem contado o proseguimento da venda dos brilhantes até com- pletar-se a formatura de Francisco Gosta, concluí- da em 1846. A illusão do estudante nunca soffreu quebra. A restituição orçava por i:65o?5iooo réis, quando o cirurgião-medico, desgostoso de se vêr sem clinica, bem que se distinguisse em prémios e habilidade operatória, deliberou aceitar a proposta d'um armador para ir ao Rio de Janeiro como ci- rurgião de d'uma galera. O proponente era Herme- negildo Fialho, sujeito que Francisco nem de nome conhecia. Aceitou sob partido que ficaria, no Rio, se lhe approuvesse.

Joanna, na véspera de embarcar-se o irmão, pe- diu de joelhos a D. Angela que lhe deixasse decla- rar a quem deviam a sua felicidade. A esposa do brasileiro, redarguio que lhe daria máo pago, se a denunciasse sem precisão nem utilidade, indo humi- lhar um homem que não podia agradecer, sem des- consolação, o beneficio da mulher que o amou.

Pelo que respeita ao viver intimo do brasileiro e esposa, no correr doestes cinco annos, é de notar que melhorou sobre maneira. Angela conformara-se, ou as alegrias da beneficência vislumbravam-lhe no rosto, mais aíFavel para o marido. Elle, por sua parte, cumprindo o programma exposto equivoca-

1^0 Os brilhantes do brasileiro

mente á irmã n'aquella phrase eu me arranjarei^ realisou-o exuberantemente mobilando em S. Roque da Lameira e na Cruz da Regateira duas vivendas alegres, gaiolas d' amor, em que tinha as duas aves colhidas a visgo de oiro nas florestas da sua Bar- rosas, segundo elle confessara, justificando os mo- tivos a seu hospedeiro compadre Athanasio José da Silva.

E visto que chegamos ao ponto em que deixamos o brasileiro roncando, ligue-se a historia, depois de havermos afFastado da immaculada esposa as pre- sumpções aleivosas.

XVIII

A infamada

Estava Angela escrevendo a um dos três amigos de seu marido, rogando que a não considerassem esposa infiel, nem diffamassem seu nome, querendo forçal-a a entrar n'um convento, á imitação das mu- lheres delinquentes. Promettia ella defender-se, se seu marido a quizesse escutar, a sós, bastando-lhe de sua innocencia o testemunho de Deus, cuja pro- videncia, em tão apertado lance, lhe dava coragem para encarar de rosto qualquer desgraça, menos a de entrar no convento com a nódoa de adultera.

A carta ia ser fechada, quando se annunciou Athanasio, com os seus amigos Pantaleão e Joa- quim António.

O marido da Ruiva declarou que o amigo Her- menegildo teimava em que sua mulher entrasse no convento que lhe fosse escolhido por elles represen- tantes de suas ordens ; e que, no caso de a senhora se negar a obedecer a tão justo mandado, fizesse

142 Os brilhantes do brasileiro

de conta que não tinha marido, nem casa, nem for- tuna, porque todos os teres e haveres de seu ho- mem estavam hypothecados, vendidos e alienados, como se provaria em juizo com documentos da maior validade Escutou-os Angela, e disse serenamente :

Mandam-me por tanto sahir?

Sim, se a senhora não quizer ir para convento.

Não vou.

Então, muito nos custa dizer-lhe que. ..

Despeje a casa? concluiu Angela.

Sim. . ., se a senhora. . . repetiu Athanasio Bem sabe que a honra d'um homem. . . Seu ma- rido tem de dar contas á sociedade. . .

E a Deus ajuntou Angela.

Isso de Deus... resmuneou Joaquim José António.

Não ha ? perguntou ella.

Não sei se ha, nem se não ha. O que sei é que elle não se mette n'estas coisas.

Se a senhora está innocente interveio Pan- taleão prove-o. Diga a quem deu i:65oírooo réis.

A um pobre.

Mas quem era o pobre ? Saibamos isso. . . Era pobre honrado^

Era.

Como se chama ?

Ainda que lhes diga o nome d'elle, os senho- res não conhecem os pobres honrados ; conhecem somente os infames ricos.

Tenha prudência na lingua, minha senhora rebateu Athanasio.

Os brilhantes do brasileiro Z4S

Desçam as escadas, que quero sahir, seus bil- tres! exclamou a filha de D. Maria d' Antas Se os gallegos da casa me obedecessem, haviam de fa- zel-os saltar pelas janellas ; mas a casa não é mi- nha, e infame eu seja quando pedir um ceitil do que ella encerra. Aqui ficam as jóias de minha mãe, que valem quatro ou cinco contos de réis. O seu amigo Hermenegildo que se pague do que me deu, e, se alguns vinténs sobejarem, que compre uma corda e que se enforque.

Irra ! . , . que mulher ! dizia Joaquim a Pan- taleão, limpando o suor da testa em janeiro.

Tem diabo no corpo! regougou o outro. Voltaram-lhe as costas com arremesso, e sahiram

vociferando palavras insultantes.

Depoz eiles sahiram Angela e Victorina, deixando as portas abertas e a casa entregue aos criados, que choravam em altos clamores.

Vaes tão triste ? ! perguntou Angela á criada.

E vossa excellencia não, minha infeliz menina?

Não! pois não vês?! O que eu não deixei n'aquella casa foi o ouro da consciência. . .

Sahir sem nada!... Que leva vossa excellen- cia ahi n'esse dispensável?. . .

E' o livro dos Sonhos do Francisco respon- deu ella sorrindo Não tenho mais nada que me recorde a minha alegre mocidade senão isto e tu ! As coisas que mais amo vão comigo.

Victorina chorou de agradecida, e participou in- voluntariamente da alegria da senhora.

Entraram na rua do Moinho de Vento e procu- raram um numero de casa. Subiram, e acharam-se

144 ^^ brilhantes do brasileiro

na alegre e aceiada saleta de Joanna Costa, que se levantou a receber a fidalga com transporte e es- panto.

Venho pedir-lhe um canto da sua casinha í disse Angela risonhamente Dê-me o quarto de seu irmão para mim e para a minha Victorina.

Pois que é minha senhora? que é isto?! exclamou Joanna.

E' que fui expulsa: não tenho casa, nem tfor- tuna». Veja como se cahe depressa, minha amigai apesar d'isso, quando a queda não é vergonhosa, a gente parece que sente as azas dos anjos a ampa- ral-a.

Referiu Angela o successo dos brilhantes, da in- timação para responder á authoridade, da mensa- gem dos amigos do marido, etc. Se Joanna a inter- rompia com o choro, a serena hospeda revelava desgosto, e queixava-se do máo uso que ella fazia das lagrimas.

Finda a relação, a filha do general foi tomar posse do quarto de Francisco, quedou largo tempo a exa- minar as mais insignificantes coisas, boliu nos li- vros, nas gavetas, nos papeis escriptos, sorrindo a tudo.

O meu livrinho das Esperanças ? perguntou ella.

Levouo. Costumava estar n'este sitio res- pondeu Joanna indigitando um logar vasio entre dois livros.

Pois irá para o logar d'elle o livro dos So- nhos.

E collocou o manuscripto, examinando os dois

Os brilhantes do brasileiro 145

livros lateraes. Eram também manuscriptos, e am- bos com o mesmo titulo: Angela. Joanna disse, sorrindo:

Eu nunca lhe contei que elle tinha esses li- vros...

Não.

De propósito para que vossa excellencia os não quizesse ver. . . Escreveu os nos primeiros qua- tro annos da nossa pobresa. Passava as noites n'is- to, depois de gastar os dias no escriptorio. Lia-me ás vezes alguma pagina, e abraçava me se eu cho- rava. Mas não se intristeça, minha senhora ! mu- dou de semblante !

E* felicidade ! não me lamente, minha ami- ga!.. . Como eu quero a estes dois livros ! . . . E era capaz de me deixar morrer sem que eu os visse ?

De certo ! Deus me livrasse de eu ir inquietar vossa excellencia ! . . . depois que meu irmão sa- hiu, estive aqui um dia muito doente, e pensava em os rasgar, se peorasse; que não fosse alguém ler o que elle dizia de vossa excellencia. . .

Pensemos n'outra coisa, minha amiga tor- nou Angela com os olhos rasos de gososas lagri- mas — Temos em que trabalhar ?

Não precisamos; que meu irmão deixou -me metade dos trezentos mil réis que foi ganhar. Ape- nas gastei duas moedas doeste dinheiro. Abra vossa excellencia essa gaveta, que está o resto.

Mas é necessário trabalhar, minha irmã. A

ociosidade é o tédio, é a doença, é o desespero.

Olhe que eu, quando me chamavam a brasileira do

10

146 Os brilhantes do brasileiro

meio milhão, em cada dia, costurava cinco horas. E foi bom conservar os costumes adquiridos na po- bresa do convento. A pobresa voltou; mas d'esta vez encontra-me prevenida, e de mais a mais dis- posta a desafial-a para que me incommode.

E como o prazer lhe salta nos olhos ! dizia Joanna a contemplal-a, e a saborear o seu quinhão d'aquella communicavel alegria.

Não, que a minha irmã não imagina quanto me sinto bem ! Parece que renasci ! O' Victorina, vae ver como está isso de cosinha. Tenho von- tade de jantar. Vamos jantar logo, Joanninha ?. . . E, se seu irmão nos apparecesse agora ? Se elle me encontrasse de posse do seu quarto e dos seus li- vros, e a escrever as minhas novas Esperanças. . . Esperanças! sorriu ella accentuando a palavra Agora é que as esperanças de amanhã não hãode inquietar o bem de hoje 1 Até agora o que eu es- perava era isto . . . esta paz^ esta doçura de viver, sem parentes, sem ninguém, senão com as pessoas que sacrifiquei, e me querem bem, apesar de tudo, não é verdade ?

Mas se seu marido a vem buscar, minha se- hora !

Buscar-me ! eu morri, ou elle morreu. . ., não sei bem quem foi; mas o certo é que nos não ve- remos mais. . .

A'quella mesma hora, Hermenegildo jantava na cevadeira de Athanasio. Escarmentado pela ceia da véspera, não comeu empadão d'ôstras; mas fez-se em lagosta e salmão. Depois de jantar, reuniu os

Os brilhantes do brasileiro J4j

amigos, e completou as instrucções a seguir sobre a segura arrecadação da sua «fortuna», alienação fraudulenta de quintas, casas e navios, tudo incon- tinente para antecipar-se á tentativa de divorcio com a separação do casal, a requerimento de sua mu- lher. Ao anoitecer, metteu-se em carruagem, e foi para S. Roque da Lameira, ou para a Cruz daRe- gateira: não liquidamos com certesa em qual das paragens pernoitou. O sabido é que uma das duas frescassas moças de Barrosas o seguiu para o Por- to, no dia seguinte por noite, e tomou as rédeas do governo da casa do brasileiro, e achou bonitas as cortinas do leito nupcial de Angela, quando pela manhã um raio de sol, atravez das rendas, aureo- lava a cabeça de Hermenegildo, contornada no braço trigueiro d'ella.

E, quinze dias depois, o brasileiro, chorado e la- mentado dos amigos, embarcava em um dos seus navios, aproando ás praias de Santa Cruz, onde, di- zia elle, ia esconder a sua vergonha, associando á sua angustia a franduna rapagôa, Rosa Catraia, que se lhe encostava ao coração, enjoada com o balanço da galera !

A colónia de brasileiros portuenses longo tempo chorou a sorte dura de Fialho. Alli, na Praça-nova e no Jardim de S. Lazaro, se apinhavam os mago- tes d'aquelle gentio a escoucear na honra de An- gela. Em quanto uns diziam que ella passara a abarregar-se com o incógnito amante, outros asse- veravam ler exactas informações de que a tal fidalga de Cascos-de- rolhas cedo poria em almoeda a sua bellesa. E os homens honestos do Porto jungima-

148 Os brilhantes do brasileiro

se na maledicência com a vara de javardos que re- toiçavam e forçavam na infâmia uns dos outros. E sobre aquella gente chovia, e chove Deus toda casta dej prosperidades ! E a providencia ter-lhe-ha dado quanto tem e pôde no dia em que enviar sobre ella uma nova chuva. . . de albardas.

XIX

Amor próprio

Recebeu Joanna a segunda carja de seu irmão. A prosperidade aíFagavao no Rio de Janeiro. Feliz n'uma operação de catarata, e louvado nos periódi- cos, fez soar o seu nome nas capitães das provín- cias, d'onde concorriam os infermos a consultal-o. As remunerações eram liberalissimas, por maneira que, segundo a parcimonia de sua ambição, poderia, dizia elle, retirar- se com sobejos recursos para vi- ver em Portugal sem clinica. Não transparecia da carta scintilla de contentamento, senão antes muitas e tristes saudades da irmã e do seu gabinete de me- ditação. O periodo ultimo da carta resava assim :

«Li ha dias no Jornal do Commercio, que tinha «chegado ao Rio o portuguez Hermenegildo Fialho, «que é ou era o dono da barca erti que vim. Nunca «o tinha visto ; mas intendi que devia procuralo, «por que era d'elle o primeiro dinheiro que ganhei «pela sciencia, e o com que te estás sustentando.

i5o Os brilhantes do brasileiro

«Tinha-se hospedado em casa do seu corresponden- «te. Sem eu nada lhe perguntar, me disse que dei- «xára Portugal para sempre, por causa de sérios «desgostos que lhe dera a mulher. Ouvi-o em silen- «cio, e tive pena do homem que me pareceu cons- «ternado, posto que nédio e pouco azado para mo- «ver á piedade. Mas a minha compaixão trocou-se «em riso quando hontem o vi em Petrópolis com «uma espaduada mulher que denunciava pertencer «á raça forte das nossas mulheres do Minho. Eu «ia-me desviando d'elle, pensando que o embaraça- «va ; mas elle mesmo me chamou para me offerecer «de almoçar com tal instancia que não pude safar- «me. Não me atrevia a perguntar quem era a nossa «commensal. Gomo leste o D. Quichote imaginaras «que eu, comparando os personagens do romance «com os do almoço, me figurei que Sancho tinha «roubado Maritornes ao cavalleiro da triste figura. «Realmente, Hermenegildo, como Sancho, excedeu «a imaginativa de Cervantes.

«Em meio do almoço, o marido exilado da pa- «tria e da esposa que o deshonrou, me disse que «aquella mulher era o seu aconchego, e a consola- «ção das suas maguas. Isto me fez um certo ingu- «Iho, e fiquei depois a pensar na desmoralisação «d'aquelles cincoenta annos. Talvez qiie a mulher «cuide que o seu esposo anda por muito ator- «mentado ! Gontei-te este caso por achar n'elle, não «direi sal, mas podridão dos costumes contempora- «neos, etc.»

Leu Angela a carta, interrompendo-se com impul- sos de riso no derradeiro periodo.

Os brilhantes do brasileiro i5i

E, se elle soubesse que eu era a esposa de Sancho !. .. exclamou ella casquinando uma argen- tina risada Que piedosas lagrimas não verteria o nosso Francisco, minha irmã ! E, se não chorasse, pôde ser que eu lhe fizesse também ingulho ! . . .

A despeito do riso, Angela doêra-se, e em secreto sentiu Ímpetos de chorar. Não lhe pungia a ridí- cula libertinagem do marido. Que lhe fazia isso a ella ? O nojo não tinha onde coubesse. A magua era toda de amor-proprio ; era prever que Francisco Costa, um dia, ao saber que tão grutesco homem era o marido da mulher única do seu amor, senti- ria despintar-se-lhe da fantasia o colorido ideal com que a etherisava nos dois livros chamados Angela.

E, como esta magua era de espécie ruim de re- velar-se, o callal-a foi um penetrar-se mais dos es- pinhos de sua perdoável vaidade, e entristecer-se a extremos de dar que soffrer á amiga e a Victorina.

Perguntava ella uma vez a Joanna :

Seu irmão, quando soube que eu casara no Minho, como o soube ?

Por que um homem de Ponte lhe disse que a filha do sr. general Noronha tinha casado muito ri- ca, e o soubera do mordomo de seu pae. . .

Eu vi aqui no livro d'elle, interrompeu An- gela— uma allusão ao meu casamento. Diz elle as- sim. . . (E abriu o livro, onde tinha a lauda dobrada, e leu :) Que pena terás de ti própria, Angela, quan- do não sentires o calor da tua alma ftas formas tão bellas, tão vestidas de celestial lu:{, conspurcadas no sevo da brutal cupide:^ do argentarioL .. Sabe, minha amiga, o sentido d'estas palavras?

j52 Os brilhantes do brasileiro

Sei, minha senhora. E' por que o mordomo de seu pae tinha visto, não sei onde, seu marido, e dissera ao outro que nunca vira coisa mais feia.

E seu irmão despresou-me por isso ?

Leia vossa excellencia a continuação do livro e verá que elle não a despresou : amou-a sempre com a mesma elevação espiritual do tempo em que elle dizia, e eu mal o percebia: Como homem acal- ma adoro Angela^ illumino-a d lu^ que radia das minhas crenças em ^eus. Quantas vezes cu lhe di- zia : Porque não amas outra ? E elle respondia- me: «Não se aviltam certas almas quando mesmo queiram envilecer-se. . . »

Isto está aqui escripto apontou Angela, e continuou lendo : Entre ti e Deus poderá existir ou- tro elo, minha querida amiga; mas eu não o conhe- ço. Se um dia o conhecer, então esquece?^- te hei, O homem, que te chama sua, é apenas a lama que se apegou ao brilhante cahido jio tremedal. Eu serei sempre, na tua memoria, o aro de ferro onde real^ caria o teu brilho. A sociedade enxovalhou te, im- pelliu'te a golpes da miséria d degradação dos cor- pos escravos do ouro; mas eu sei que a tua alma se pae alçando mais para a sua origem purificada por agonias superiores ds minhas, A